Levar parentes no estádio? Jamais!
Apitar faltas, pênalti e aguentar a pressão em campo não é uma tarefa das mais fáceis, porém as duas mulheres seguram a situação com bravura. Suas famílias, no entanto, não vão aos estádios. ''Iriam ouvir coisas de magoar'', diz Sílvia Regina. No máximo, e contra a vontade dela, mãe, pai e irmão vêem jogos pela tevê. Ana Paula também ''proíbe'' os pais de frequentar as arquibancadas. ''Minha mãe é muito temperamental'', conta. Jogo, garantem árbitra e auxiliar, não é lugar de levar família - a delas, pelo menos. Namorado, nem pensar. ''Não é legal. Acaba arrumando confusão'', diz Ana Paula, que passou pela experiência. ''Um ex-namorado meu quase pegou um torcedor pelo pescoço.''
As duas mulheres garantem que há homens bocas sujas em todo lugar. No interior, às vezes alguns usam versões mais light, como o ''vai lavar roupa, dona Maria'' ou ''mulher só devia pilotar fogão''. Também atuam nas Terceira, Quarta e Quinta Divisões, onde os jogos são em estádios menores, com público mais próximo.
''Fico tão concentrada no jogo que não ouço nada. Nem levanto os olhos para ver a torcida'', assegura Sílvia Regina. Mas, se o insulto partir de jogador, não há perdão. ''Já apitei mais de 800 jogos e nesse tempo todo só três deles me ofenderam.'' O que aconteceu? ''Os três foram expulsos. E um deles estava no banco. Eles também têm mães, mulheres e irmãs, que gostariam de ver respeitadas.''
Se, durante os 90 minutos, Sílvia Regina e Ana Paula só prestam atenção no que acontece no campo, os momentos mais críticos são os antecedem os jogos, na vistoria no gramado. ''Nessa hora, começam a falar gracinhas, do tipo 'me dá o número do seu telefone''', conta Sílvia. ''Só que, depois, quando o time começa a perder e acham que a culpa é minha, apelam para os palavrões. Infelizmente, isso faz parte da cultura do futebol e nos tornamos o bode expiatório de qualquer coisa que dê errado.''
Mas as duas companheiras de campo também têm um lado bom de trabalhar nos estádios lotados. Como mulher mandando em território masculino ainda é novidade, quando Sílvia Regina, Ana Paula e a outra auxiliar, Aline Lambert, estiveram em Fortaleza, Caxias do Sul e Belém, foram recebidas com festa. ''O estádio inteiro nos aplaudiu'', lembra a árbitra.





