Brasília - O público presente pode até não ser formado por aquela que Renato Russo chamou de 'geração coca-cola', mas no Estádio Mané Garrincha, em Brasília, todos cantam as músicas do Legião Urbana, antes, durante e depois do jogo. Afinal, a partida é do Legião F.C.
O clube tem pouco menos de dois anos de profissionalismo. Começou em 2001 como um projeto social e seu nome, obviamente, é em homenagem a Renato Russo, líder e vocalista de uma das bandas de rock que marcaram época no Brasil. Suas músicas são tocadas até hoje com sucesso nas rádios.
Normalmente, nos jogos em que é mandante, enquanto o time está em campo uma banda cover da Legião Urbana está nas numeradas transformadas em camarote. É gol do Legião? Então lá vai uma música para divertir a galera. Domingo passado, a banda não esteve no Mané Garrincha... E o time (coincidência?) perdeu a primeira partida no Campeonato Brasiliense (1 a 0 para o Dom Pedro II) e também a liderança (agora ocupa a quarta colocação).
Se o rock ficou restrito ao sistema de som, por meio de CD, o samba entrou no seu lugar. A batucada da Gaviões da Legião só silenciava quando uma das músicas de Renato Russo tocava alto. E os torcedores - acompanhados por dona Carminha, mãe de Renato e madrinha do clube - cantavam juntos, sem fazer feio. ''É uma das grandes homenagens que já fizeram ao Júnior (Renato)'', diz dona Carminha. ''Tenho certeza que ele iria ficar muito feliz.''
Em Brasília, basta ser bom de bola para vestir a camisa alaranjada do time. No currículo, nada de ser fã da Legião Urbana. Pretendentes a uma vaga na equipe, fiquem tranquilos: ninguém vai lhe pedir para cantar uma das músicas da banda. Os jogadores, aliás, não sabem a discografia do grupo, que em sua formação mais duradoura teve Renato Russo nos vocais, Dado Villa-Lobos na guitarra e Marcelo Bonfá na bateria.
No Legião F.C., apesar de toda a relação com o rock, a história não é diferente da de outros times: na concentração, o pagode e o samba dão o tom. ''Sou do interior de Minas, gosto bastante de sertanejo e de um pagodinho'', confessa o zagueiro Ícaro, nascido em Paracatu (MG). ''Eu não gostava muito de rock, não. Hoje já conheço a família do Renato, mas não conheço muito a música dele'', entrega. ''Pela convivência, comecei a gostar.''
Não é difícil saber por que os jogadores se acostumaram ao rock que nasceu em Brasília no começo da década de 1980 (o grupo foi formado em 1983 e o primeiro disco, lançado em janeiro de 1985) e depois se alastrou pelo País. Basta comparecer ao Mané Garrincha, onde o time manda seus jogos. A idéia é que em toda partida uma banda cover da Legião dê show aos privilegiados torcedores.
Não só pelo som ao vivo, mas pelas comodidades que eles encontram nos camarotes. É claro que há torcedores 'reais', ou seja, aqueles que costumam pegar fila nos guichês e ficar na arquibancada. Mas são poucos e, por isso mesmo, também não enfrentam confusão antes do jogo, mesmo chegando em cima da hora.
O público do Legião é elitizado. Empresas associadas ao clube pagam quantia anual (seis parcelas de R$ 1.800 ou seis de R$ 2.400) e ganham camisas personalizadas, que são os ingressos para as partidas.
No estádio, quer dizer, nos camarotes, tudo de bom e do melhor: bebidas, salgadinhos, música, TVs de plasma, pipoca. Sem contar os seguranças contratados para cuidar dos carros. ''É um jeito novo de torcer'', diz o zagueiro Ícaro. ''Pode até parecer que não tem muita gente (no último domingo, por exemplo, cerca de 2 mil pessoas foram ao jogo), mas para nós faz bastante barulho.''
No meio deste barulho todo não é difícil encontrar dona Carminha, mãe de Renato Russo. Madrinha do clube, ela gosta de comparecer ao estádio. ''Virei cartola'', brinca. ''Gosto de vir ao campo, de encontrar os amigos. É uma festa família.''
Dona Carminha não é daquelas torcedoras que xingam o time quando vai mal, mas dá suas cornetadas. ''Eles só não sabem finalizar, o resto fazem bem.'' No último domingo, a mãe de Renato Russo foi ao jogo acompanhada de Giuliano, 18 anos, filho do cantor. Ele, no entanto, foi embora cedo. ''Não gosta muito de futebol'', entrega a avó. Apesar de não acompanhar, Giuliano é o presidente de honra do clube.
''Em 2004, demos o título a ele'', conta Ítalo Nardelli, presidente do Legião F.C.. Naquela época, o profissionalismo era apenas uma idéia do empresário. Três anos antes, ele deu início ao Legião de Craques, uma associação que visava a dar oportunidade para crianças carentes. ''Em maio de 2001, a gente estava insatisfeito com uma escolinha, não concordava com a metodologia dela. Tinha um cunho muito comercial'', lembra Ítalo. ''Os moleques bons de bola sumiam. Aí, fomos atrás para saber o que estava acontecendo e vimos que eles não tinham condições financeiras para treinar, para pegar condução.''
De tal preocupação surgiu o embrião que viria a se tornar um dos principais times de Brasília. ''O Legião nasceu num campo de society. A gente dava passagens pros meninos vir treinar'', fala o presidente. ''O pai de um dos garotos havia feito um curso de treinador no Rio. Quando vimos, já tínhamos um time'', relembra. ''Passamos a jogar contra outras equipes e sempre ganhávamos. Éramos os descamisados, sem nome. Aí, cheguei pra mãe do Renato e falei que iria destinar parte do dinheiro para a área social. Disse que queria homenagear o Renato Russo e a banda, por isso o nome Legião de Craques. Ela aceitou e oficializamos o nome em dezembro.''
No ano seguinte a associação foi federada. E os bons resultados nas categorias menores fizeram com que Ítalo resolvesse profissionalizar a equipe, em maio de 2006 - ano em que o Legião entrou na recém-criada Série C do Estadual, com apenas outros três times, e foi o campeão. Em 2007, mais uma boa campanha: oito vitórias na fase inicial e, na final, derrota de 4 a 2 para o Brazlândia. ''Não fosse isso (a perda do título), o time estaria hoje de salto alto e os jogadores iriam querer ganhar mais'', diz o presidente.
Além das cerca de 50 empresas-parceiras, o Legião F.C. conta com dois patrocinadores, que estampam suas marcas na camisa e bancam boa parte da média de R$ 120 mil mensais da folha salarial do futebol profissional. A renda do clube, hoje, é praticamente toda oriunda dos patrocínios e das empresas parceiras. Ainda não deu para lucrar com a venda de atletas. ''Para chegar a este status tem de ir subindo'', declara Ítalo.

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