Labirintos são 1.º desafio no Paris-Dacar-Cairo
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 05 de janeiro de 2000
Por Julio Cruz Neto 
Dacar, Cairo, 05 (AE) - Não foi só o número de veículos participantes do Dacar (414) que cresceu em relação aos últimos anos. Cresceu também o número de candidatos ao título. Se as marcas com chances de ganhar continuam as mesmas entre as motos (KTM e BMW) e os caminhões (Tatra e Kamaz), nos carros a disputa promete ser mais acirrada. O Dacar-Cairo, 22a edição do mais tradicional dos ralis, começa amanhã. E a primeira etapa, de 594 quilômetros, será realizada entre Dacar e Tambacounda, tudo dentro do Senegal.
Os dois bugues com motor Renault do francês Jean-Louis Schlesser, campeão do ano passado, são sem favoritos. O melhor deles é pilotado pelo próprio Schlesser e outro, pelo espanhol Jose Maria Servia, quinto colocado no Granada-Dacar 99, quando a Mitsubishi, então favorita, teve de amargar apenas a segunda, a terceira e a quarta colocações. A Mitsubishi também vem com a mesma estrutura.
Um dos carros novos que, embora seja uma incógnita, pode chegar pelo menos entre os dez primeiros, é o bugue Renault Kangoo, pilotado pelo francês Luc Alfand, campeão do ano passado na categoria maratona. O simples fato de esse protótipo também pertencer a Schlesser impõe respeito.
Mas quem realmente deve lutar pelo título do primeiro rali do ano 2000 com Schlesser e com os Mitsubishi são os carros da Nissan, que no ano passado fez sétimo e oitavo lugares e investiu pesado para melhorar. E também o protótipo Mega Desert do francês Stephane Peterhansel, com motor Mitsubishi. Seis vezes campeão de moto, Peterhansel, com um Nissan, terminou em sétimo na última edição, em sua primeira participação na categoria carros.
Terceira colocada em 99, a alemã Jutta Kleinschmidt volta com a mesma navegadora, a sueca Tina Thorner, e o mesmo Mitsubishi vermelho, com pequenas alterações. As duas concordam que, com o aumento da concorrência, será mais difícil repetir o bom resultado. E o pior é que Jutta acha o carro atual pior que o antigo, por ser mais pesado na frente: "É ruim na hora que ele salta." Ela também teme que a parte final, nas dunas da Líbia e do Egito, seja muito veloz, favorecendo os bugues.
Outra alemã de destaque é Andrea Mayer, 32a no ano passado entre as motos. Ela tem o privilégio de pilotar uma das seis motos da equipe oficial da BMW e chegou a testar o modelo com dois cilindros que a fábrica alemã trouxe para o Dacar esse ano, mas preferiu não arriscar: "Se caísse, eu não conseguiria levantar. É muito pesada, é para homem."
Andrea tinha em mãos a foto de uma senegalesa que a conheceu após o final do Granada-Dacar, há um ano, e foi encontrá-la novamente hoje: "Ela ficou um tempão olhando minha moto." Enquanto alguns participantes do rali desfilavam com suas novas namoradas locais, outros foram à ilha de Gorée, a 20 minutos de Dacar, conhecer o deprimente local onde os escravos eram guardados antes de serem embarcados para a América. Mas a ilha é linda e o único inconveniente, para quem não quer voltar carregado de bugigangas, é se desvencilhar das petulantes vendedoras ambulantes, que praticamente vão buscar os visitantes dentro do barco.
Só que a moleza acabou. Até hoje, era possível fazer compras em loja de conveniência da Select e até comer pizza ouvindo Djavan e tomando a (boa) cerveja local, chamada Flag. A partir de amanhã, começam as privações - de todo tipo.


