Berlim - Andreas Brehme mal acabara de marcar, aos 37 minutos do segundo tempo, o gol que sacramentava a vitória da Alemanha sobre a vizinha e rival Holanda, pelas oitavas-de-final da Copa do Mundo de 1990, quando foi chamado à beira do campo pelo técnico Franz Beckenbauer. Em vez de um cumprimento, o lateral recebeu um furioso misto de recado e bronca do Kaiser, nada impressionado com duas jogadas de efeito de um dos atacantes de um time que aproveitava avanço rumo ao terceiro título mundial para se vingar de uma dolorosa derrota para a Laranja nas semifinais da Eurocopa, ocorrida dois anos antes, em plena Alemanha: ''Se você passar a bola para Jurgen, vai para o banco agora mesmo. Ele precisa parar de achar que é o Pelé branco.''
Dezesseis anos depois, a desobediência só fez aumentar. Klinsmann agora faz careta para o pragmatismo da escola alemã, pregando um estilo de jogo tão alegre como eficiente, e em que um pouco de improviso é muito mais necessidade do que o pecado imortalizado pelo ditado germânico de que a arte não ganha o pão. Sob seu comando, a Mannschaft, como é conhecida a seleção do país, pode até ter feito uma preparação repleta de solavancos para a Copa do Mundo de 2006, mas amanhã, contra a Argentina, pisará o gramado do Estádio Olímpico de Berlim muito mais esperando do que sonhando continuar no caminho de uma volta por cima no mundo do futebol.
Um dos maiores ídolos da história do esporte alemão, e figura fundamental da equipe que levantou a taça Fifa justamente num duelo com a Argentina, Klinsmann assumiu a seleção em setembro de 2004, disposto a desafiar o tradicionalismo do futebol do país com a mesma rebeldia dispensada a treinadores e dirigentes nos tempos de jogador.
E o ex-artilheiro arrepiou ainda mais o cabelo da cartolagem ao chegar com um plano de trabalho para lá de iconoclasta. Em troca da promessa de disputar o título mundial mais por méritos próprios do que por uma chave generosa, como foi o caso de 2002 (o único adversário de nível da Alemanha naquela Copa foi o Brasil, e na final), Klinsmann pediu carta branca para cometer heresias como usar os serviços de um psicólogo e o de recorrer aos serviços de profissionais americanos para cuidar da preparação física da seleção.
''Eu nunca imaginei que fosse ter um trabalho fácil, mas sabia que uma chance como essas poderia jamais aparecer de novo. Não queria passar o resto da vida me recriminando por falta de coragem'', afirma o treinador, de 41 anos.
Sem falar que Klinsmann também gera receita: sua entrada na seleção trouxe mais patrocinadores e teve efeito até no aumento da a audiência nos jogos da equipe. O principal trunfo, porém, é o entusiasmo transmitido a um grupo de jogadores que, como anfitriões do Mundial de 2006, têm abusado da descortesia com as visitas, sempre recebidas com a faca nos dentes. Que o diga a Suécia: um empate convincente diante da Inglaterra foi seguido de um massacre pelas mãos dos alemães, ainda que apenas dois dos 25 chutes a gol tenham ido para na rede.

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