Curitiba - O maior jogador da história do futebol paranaense chama-se José Kléberson Pereira. Nenhum outro quebrou tantas barreiras e conquistou tantos títulos quanto ele. Foi tricampeão paranaense, campeão brasileiro e campeão mundial. Foi o primeiro paranaense a ser titular e conquistar o título com a seleção brasileira em uma Copa do Mundo enquanto ainda jogava por um time do Paraná. Este atleta de 24 anos, 1,75 metro e 64 quilos também será o primeiro jogador brasileiro a vestir a camisa do Manchester United, time inglês incluído na restrita galeria dos cinco mais ricos do mundo. O atleta com jeito de menino simples e até um tanto tímido, estará ganhando alguns milhões de dólares nos cinco anos de contrato com o Manchester, mas tudo começou nos campinhos do futebol de salão e de grama de Ibiporã, no Norte do Paraná. O impressionante é que a carreira meteórica o levou a estas conquistas em menos de sete anos, desde que ingressou no PSTC e depois no Atlético.
Infância em Ibiporã
Nasci e fui registrado em Uraí, cidade da minha mãe, mas minha família já morava em Ibiporã, onde passei toda a minha infância. Quem me levou primeiro para os campinhos foi meu pai, que tinha sido ponta-esquerda. Foi ele que me passou quase tudo e com ele fui aprendendo. Quase não parava em casa e ficava o dia inteiro na rua, jogando bola. Tinha jogo de manhã, de tarde e às vezes até de noite. Mas nessa época queria jogar futebol de salão porque meus amigos jogavam e era mais divertido.
Início no futebol
Quando tinha uns 13 anos, um ex-jogador de Ibiporã, o professor Jair, fundou uma escolinha de futebol e eu comecei a aprender e jogar. Meu pai tinha o uniforme e também levava a bola, não tinha como eu não jogar. Mas comecei na ponta-esquerda porque queria ser igual a ele, apesar de só chutar com a direita. Então, o pai me levou na frente de um paredão para que eu exercitasse o chute. Graças a isso ganhei muita coordenação e aprendi a chutar com o pé esquerdo.
Peneiradas
Fui reprovado em duas peneiradas. Primeiro foi no Londrina. Fiz um teste e fui dispensado. O técnico era o Dedé (o professor Dedé nega esta informação). Depois, fiz um teste no PSTC e também fui reprovado. O técnico era o Canhoto. Então, comecei a treinar no Nichika até que o Ticão me viu e me recomendou novamente para o PSTC.
PSTC
O PSTC foi decisivo na minha formação porque sempre deu muita importância aos treinamentos de fundamentos. Era fundamento o dia inteiro e isso, depois, me ajudou bastante. Além disso, o Ticão me acompanhava sempre e também me ajudou a crescer como ser humano. Apostava em mim e me cobrava disciplina e responsabilidade. Eu também era muito tímido, muito acanhado e ele me ensinou que tinha que superar isso para poder crescer profissionalmente. Fiquei no PSTC dois anos e joguei em várias posições.
Atlético
Cheguei ao Atlético com 18 anos para participar da Taça BH, em 98. Fui bem recebido porque no clube já haviam alguns jogadores que tinham passado pelo PSTC e me receberam muito bem. As coisas aconteceram rápido e as pessoas me ajudaram muito. Em 1998 assisti aos jogos da Copa do Mundo no quarto do alojamento do CT do Caju. Nem imaginava que quatro anos depois estaria disputando uma Copa com a camisa da seleção. Meu primeiro técnico era o Sérgio Moura, mas não tive muitas oportunidades porque tinha um pessoal que estava estourando idade e precisava aparecer. Só no outro ano é que fui titular. O técnico do time principal era o Antônio Clemente e foi com ele que tive a primeira oportunidade. A primeira partida joguei como lateral-direito e fui bem. Em 1999, participei da Taça São Paulo de Juniores e fiz um gol do meio-de-campo no Fluminense. Este gol impulsionou minha carreira. Aí já comecei a entrar direto no time principal.
Campeão brasileiro
Com o Vadão, no Atlético, fui campeão da seletiva para a Libertadores. A grande fase desse time que foi se formando depois da saída do Kelly, do Lucas e do Adriano, que depois voltou, foi mesmo na conquista do título brasileiro, em 2001. Parecia o paraíso. Chegamos na fase final, o time concentrou e disse que só sairia da concentração com o título. A gente jogava de olhos fechados, não precisava nem ver o companheiro para saber o que ele iria fazer. Foi uma conquista espetacular, ser campeão num clube que estava crescendo. Foi uma conquista que revolucionou o futebol do Paraná. Eu cresci junto com o Atlético. O clube me projetava e eu projetei o clube também com a ida para a seleção.
Seleção brasileira
Quando fui convocado para a seleção, a imprensa, principalmente do Rio e de São Paulo, dizia que eu era inexperiente, que não iria render, mas eu assumi a responsabilidade. O que um jogador mais quer é vestir a camisa da seleção, então eu tinha que aproveitar aquela oportunidade. Queria pelo menos 15 minutos para poder jogar e mostrar meu futebol. Antes de me apresentar à seleção, encontrei o Felipão em Florianópolis. Ele estava de férias e foi ver o Atlético jogar, depois foi falar comigo no vestiário. Me tranquilizou, disse que era para eu jogar da mesma maneira que fazia no Atlético, como segundo volante falso, me apresentando como surpresa no ataque. Ele foi muito legal. Antes, na convocação, minha mão tinha ficado fria e eu não sabia como iria ser. Fui o primeiro jogador a se apresentar no aeroporto e estava meio assustado, nunca tinha visto tanto repórter junto. Fiquei quieto num canto até chegarem os outros jogadores. Felizmente estreei começando a partida como titular, num jogo contra a Bolívia, em Goiânia, e até marquei um gol. Depois disso tudo ficou mais fácil. Quando se coloca a camisa da seleção se supera tudo, afinal a gente batalha a vida inteira para aquilo.
Copa do Mundo
Na seleção para a Copa, fiz muita amizade com o Gilberto Silva. Conversamos muito pois éramos dois novatos. Na preparação, fiquei no quarto junto com o Kaká, depois, na Copa, os quartos eram individuais, mas foi com o Gilberto que me entendi melhor. Com os jogadores como o Ronaldo, o Roberto Carlos, o Rivaldo, era legal conviver com eles pois até alguns anos antes brincava na rua de jogar bola e gritava o nome deles como ídolos. No começo, eles brincavam comigo porque eu não falava nada, ficava quieto. Quando falava alguma coisa, eles gritavam: ''Quieto, que o Kléberson tá falando''. Depois me enturmei e todo mundo realmente formou ali uma família, a família Scolari. Era titular até a preparação na Malásia, quando o Juninho entrou e foi muito bem e eu voltei para o banco. Mesmo assim, o Murtosa (auxiliar de Scolari) e o Felipão vieram conversar comigo, disseram que eu tinha condições de ser titular e que só dependia de mim. Treinei para esperar a chance. Entrei na partida contra a Costa Rica, depois, entrei contra a Bélgica, peguei uma bola no meio-de-campo e escapei para o ataque sozinho, dei o passe para o Ronaldo e ele fez o gol. Foi maravilhoso. Aí as pessoas, mesmo as que me criticavam diziam que eu era a peça que faltava para o time. O jogo contra a Alemanha, na decisão, foi o melhor jogo. Foi tão bom que quando acabou a gente queria que tivesse mais para continuar jogando. Todo mundo estava tranquilo, jogando muito. Era uma família mesmo.
A volta ao Atlético
Na minha volta teve muita especulação. Falavam que eu ia pra tudo quanto é lugar. Apareceu um monte de empresários me procurando. Tudo isso gerou muita fofoca. Felizmente a minha família me orientava, o meu pai, o presidente (Mario Celso) Petraglia (do Atlético), o Maculan (Alberto, diretor de futebol do Atlético), o Mario Iramina (presidente do PSTC), o Ticão. Então, quando eu recebia telefonemas de empresários, passava para eles, nem queria mais saber. Não que tenha sido frustrante ficar no Atlético, mas aquele ambiente de fofoca, de incerteza me deixou chateado e pode ter me prejudicado em campo.
Manchester
É um sonho realizado. Eu sonhava em ir para a Europa. Engraçado que sonhava em ir para a Inglaterra. Talvez por causa do Gilberto (Silva), que já jogava lá. Agora, quando fui para o Manchester, adorei a cidade. O estádio (Old Trafford) e a estrutura deles é invejável. Gostei tanto que não queria nem voltar, queria ficar lá direto. Tenho que esperar o visto de trabalho para ir. Deve ser entre o dia 8 ou dia 12 de agosto.
Casamento e paternidade
Vou aproveitar estes dias que faltam para organizar a vida. Primeiro vou só eu e minha mulher (Dayane). Vamos ficar em um hotel e lá vamos escolher uma casa. Depois, devo levar empregada e a mãe dela, para ficar junto com ela por causa da gravidez, para dar mais segurança. Meu filho vai nascer em dezembro e quero que ele nasça lá. O nome dele será Kléberson Williams Pereira. Até para isso foi bom que a negociação demorou. Foi um aprendizado que Deus me deu. Agora já vou casado, com a estrutura de uma família, com minha mulher para me apoiar.
A vida na Europa
Acredito que a dificuldade maior será na língua. Eu fiz dois meses de inglês, mas depois desisti. Agora terei que retomar, mas é melhor aprender lá mesmo. Comida e costumes a gente pode dar um jeito. Vou fazer da minha casa um pedacinho do Brasil.
Adaptação
Estou indo preparado. Sei das dificuldades, mas também sei que depende mais de mim. Pretendo me adaptar o mais rápido possível para conquistar a posição de titular. Conversei com o Gilberto Silva. A gente se encontrou no vôo para a Inglaterra. Ele me explicou que o futebol lá é mais tático. Mas eu, quando começou a ter a possibilidade de ir para a Europa, comecei a ver muitas partidas do futebol inglês. Não sei porque, mas já tinha a intuição que iria para a Inglaterra.

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