Kfouri confessa: 'perdi o Brasil'
PUBLICAÇÃO
sábado, 28 de outubro de 2017
Diego Prazeres<br>Editor de Economia 

Não apenas a escolha do Rio como sede da Olimpíada do ano passado foi comprada (como aliás a Justiça está tratando de provar), como a vinda da Copa para o Brasil em 2014 também ocorreu a custas de muita corrupção. O futebol da seleção brasileira não espelha o futebol que se joga atualmente no País. O Brasil regrediu como nação. A mídia brasileira de forma geral trata a cobertura esportiva como entretenimento e não jornalismo, daí escândalos como esse da Olimpíada no Rio que resultou na prisão do ex-presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Arthur Nuzman, não estar sendo noticiados com a profundidade que merecem.
As convicções são do jornalista Juca Kfouri, expressas em menos de 15 minutos de conversa. Aos 67 anos, ele acaba de lançar seu mais recente livro, o sexto, com o sugestivo nome "Confesso que perdi" (Companhia das Letras). Segundo o próprio, uma irônica inspiração na obra autobiográfica do escritor chileno Pablo Neruda, "Confesso que vivi". Nele, o mais famoso combativo jornalista do País ao menos, no esporte faz uma retrospectiva de tudo o que viveu e viu em quase 50 anos de profissão.
Estão lá histórias de bastidores de Copas do Mundo e das relações políticas, profissionais e pessoais que manteve com personalidades que vão de Pelé a Ayrton Senna, de Fernando Henrique Cardoso a Lula. Sem meias palavras, como gosta, Juca conversou com a FOLHA nesta semana por telefone para falar do livro, de esporte, de jornalismo e até do Londrina. Ele lamenta que cidades do porte como a nossa toquem o futebol com parcerias do tipo "barriga de aluguel". Confira abaixo.
O que você perdeu?
Perdi o Brasil e perdi o futebol brasileiro. O Brasil de hoje é um Brasil que está há léguas de distância do Brasil de 50 anos atrás e o futebol do Brasil está há léguas de distância do futebol que eu sonhava quando comecei a cobrir o futebol como jornalista.
E num momento paradoxal em que a seleção vem mostrando um 'novo' futebol com o Tite, mas a estrutura do futebol brasileiro continua arcaica, não?
A estrutura é a mesma, o Campeonato Brasileiro é um fiasco do ponto de vista técnico, do ponto de vista da média de público. Você compara com o Alemão, que tem média de mais de 40 mil pessoas, o Brasileiro fica com 16 mil. E mais uma vez a seleção não só não espelha o futebol que se joga no Brasil como não é fruto de nenhum trabalho da cartolagem, é fruto do talento do jogador brasileiro, que apesar da cartolagem foi capaz de ganhar cinco Copas do Mundo. Até porque, quantos dessa seleção jogam no Brasil?
Alguma esperança de que uma eventual conquista do hexa na Rússia possa mudar esse cenário?
Não... eu acho que não. Títulos não mudam como não mudaram nos cinco que o Brasil ganhou. E derrotas também não mudam porque cansamos de perder também e não mudou nada. Eu digo sempre isso, a última coisa a mudar no Brasil vai ser essa superestrutura do esporte brasileiro. E não adianta festejar a prisão de A, de B, porque a estrutura é muito mais forte do que as pessoas.
Então, com as prisões do José Maria Marin (ex-presidente da CBF) e do Carlos Arthur Nuzman, o indiciamento do Ricardo Teixeira (ex-presidente da CBF) e a situação do Marco Polo Del Nero (presidente da CBF), que sequer pode deixar o País para não ser preso Interpol, a nova geração pode pensar que as coisas tendem a mudar ou você não acredita nisso?
Eu gostaria de acreditar, mas o que eu tenho visto é que a queda de um traz a substituição por outro igual. Sempre mais do mesmo. Veja o que acaba de acontecer no Comitê Olímpico Brasileiro: o vice-presidente que assume no lugar do Nuzman (Paulo Wanderley Teixeira) é um filhote do Nuzman. Tanto que era companheiro de chapa do Nuzman. Você faria chapa com o Nuzman? Não, né?
E no livro "Confesso que perdi" você defende que não se pode dissociar a política do esporte.
Claro, claro, claro, claro, claro. A política faz parte da vida da gente até no jeito que tomamos o café da manhã. Essa coisa de dizer "não misture política com futebol" é a pior forma de fazer política porque te permite conviver com sanguinários e ditadores com a justificativa de que você só está tratando de futebol.
E aí entra o papel do jornalismo esportivo, que por se dissociar dos bastidores do esporte via de regra acaba sendo condescendente com essa estrutura vigente, não?
Sem dúvida...
Como o jornalismo esportivo pode se tornar mais relevante?
Mas veja, mudou muito, e pra melhor.
Você acha?
Ah, sem dúvida. E eu digo isso no livro. Eu me sentia absolutamente solitário nos anos 80 com a equipe de Placar e tudo mais. Hoje você tem Sérgio Rangel, Rodrigo Mattos, Jamil Chade, Gabriela Moreira, tinha a Camila Matoso no esporte da Folha de São Paulo, tem o Lúcio de Castro, enfim, um bando de gente fazendo jornalismo investigativo no futebol, no esporte. O que não significa que a maioria faça, estou de acordo contigo. A imagem mais generalizada continua a mesma. É necessário a gente notar aqueles que estão fazendo diferente. O problema é que a nossa mídia hegemônica padece da "marquetização" da cobertura do esporte, cobre esporte como entretenimento, apenas. Isso não é jornalismo, é entretenimento.
E o torcedor quer o "verdadeiro" jornalismo esportivo, na sua avaliação?
Eu relato isso. A Folha de São Paulo teve durante 12 anos um editor, o Melchíades Filho, que mais tratava de bastidores. E embora isso fosse fruto de uma discussão dentro da Folha, havendo quem achasse que era um exagero, que a Folha não cobria a emoção do jogo, todas as pesquisas do Datafolha com os leitores da Folha revelavam que eles pediam mais aprofundamento disso, mais bastidores, aquilo que o leitor tem o direito de saber, como é que as coisas são feitas.
Não acha que às vezes a cobertura passa ao largo de coisas que realmente importam? Por exemplo, um caso emblemático foi o piripaque do Ronaldo na Copa de 1998...
É, eu acho mais grave pouquíssimos terem se aprofundado nos bastidores do porquê da Copa do Mundo e a Olimpíada ter vindo para o Brasil. E agora as coisas estão muito claras. Aqueles que apontavam eram vistos como fracassomaníacos, doentes pelo complexo de vira-latas e por aí.
Pra você está claro então que o Brasil comprou a sede da Olimpíada?
Sem dúvida nenhuma, nunca tive dúvida disso, a partir do dia em que em Copenhague foi anunciado que seria o Rio. Me referi dezenas de vezes ao fato do primeiro abraço do João Havelange não ter sido no Lula nem no Nuzman nem no Pelé, foi no Jean Marie Weber, que era o homem da mala do futebol.
No caso da Copa também?
No caso da Copa foi uma articulação do Ricardo Teixeira com o Blatter (Joseph, ex-presidente da Fifa) para que o Blatter não tivesse oposição na reeleição dele para presidente da Fifa, contraposta a fazer a Copa no Brasil numa articulação do Ricardo Teixeira junto com as confederações sul-americanas todas. E depois a farra do boi com essas empreiteiras, 12 sedes, quando a Fifa pedia oito, e tem tudo a ver com a Operação Lava Jato e o diabo a quatro.
Será que a faculdades estão formando jornalistas interessados em tocar o dedo nessas feridas?
Eu tenho medo. Se você me perguntasse isso em 1990 eu diria que em 2000 estaria tudo resolvido. Nós estamos em 2017 e não acho que em 2027 estará resolvido. Eu tenho medo que eu vejo cada vez mais a garotada sair da faculdade achando que jornalista pode fazer propaganda. E aí realmente é a morte do jornalismo. E como estamos vivendo esse vale-tudo das redes antissociais eu não sei do ponto de vista ético para onde as coisas vão caminhar. Mas sou um otimista militante e acredito que as coisas tendem a evoluir pra melhor, não pra pior.
Voltando ao livro. O que valeu a pena, fazendo um retrospecto em sua trajetória profissional?
Valeu a pena botar pra fora uma porção de coisa, eu relutei em fazer o livro e depois ao começar a escrever percebi que tinha um livro a ser jorrado. Mas hoje, a cada entrevista que dou, me lembro de episódios que obrigatoriamente deveriam estar no livro e não estão. Olho pra mim e digo: "que jornalista mequetrefe que você é que não contou isso, aquilo e aquilo outro". Mas paciência, foi o que foi possível fazer no momento em que eu fazia.
E as decepções? Você conta a relação com Pelé...
Teve uma moça, acho que do portal da revista Imprensa, que disse que achava que o livro tinha um tom melancólico. E eu confesso a você que não acho que tenha, mas gostei da observação dela porque fica a leitura que ela fez e quando você faz um livro o livro deixa de te pertencer. Ela deu essa interpretação. E o que eu imagino que possa justificar essa visão dela é exatamente o fato de que se eu fizer um balanço acho que tenho muito mais decepções com pessoas do que confirmações e alegrias com pessoas. Nessa minha trajetória longa já no ofício, acho que tive mais decepções do que alegrias, daí o título do livro.
Em 2009, a Justiça do Trabalho destituiu o então presidente do Londrina, Peter Silva, no mesmo ano em que o clube havia sido rebaixado para a segunda divisão do Campeonato Paranaense, não sei se você acompanhou isso.
Eu soube.
No ano seguinte, a Justiça intermediou uma parceria do clube por 10 anos com o empresário Sérgio Malucelli, que foi sócio do Juan Figger, parceiro do Vanderlei Luxemburgo... E o clube mudou de patamar. Como você vê o fortalecimento dos clubes do interior nessas condições?
Veja, quem substituiu o Peter Silva é melhor do que ele? Ou apenas tem mais dinheiro do que ele? O que eu digo a você é o seguinte: Londrina, Maringá, Campinas, Ribeirão Preto, São José dos Campos, São José do Rio Preto, Uberlândia, Uberaba, são cidades suficientemente ricas para de uma maneira correta, ética, terem bons times de futebol e que não sejam barrigas de aluguel pra ninguém. Mas não é isso que a gente vê e a gente não vê essa tendência ainda no futebol brasileiro, infelizmente.


