São Paulo - O Centro de Treinamento da Rede Atletismo, em Bragança Paulista, estava abarrotado de repórteres no último dia 5 de agosto, dia em que iniciou o projeto Novos Talentos. A grande quantidade de jornais e emissoras de televisão e rádio presentes quase impediu o primeiro treino dos 50 aspirantes a atletas. O foco das atenções, porém, estava nos profissionais. Um dia antes, cinco atletas haviam sido flagrados pelo uso de eritropoietina (EPO), no maior escândalo de doping no atletismo do País.
A crise na equipe de alto rendimento da Rede Atletismo, em férias e com futuro indefinido, surgiu como referência negativa para os que estão dando os primeiros passos no esporte. ''O centro de treinamento ficou cheio de jornalistas, os meninos nem puderam treinar direito'', lembrou o coordenador técnico, Adriano Vittorino.
Após o episódio, os jovens foram reunidos pela direção da Rede, que reiterou a intenção da equipe de valorizar o esporte limpo. ''Reunimos todos e o doutor Jorge (Jorge Queiroz, dono da Rede Atletismo) conversou com eles para explicar a situação'', disse Vittorino.
A decepção com os profissionais, no entanto, é evidente entre os mais jovens. ''Foi uma vergonha o que eles fizeram. Para a gente que está começando, são atletas de alta performance e deram um mau exemplo'', afirmou Alexandre Negri, de 15 anos, que está começando os treinos nos 100m e 75m rasos.
Alexandre garante que o uso de doping não é visto como uma alternativa para obter resultados. ''Eu mesmo nunca nem pensei em usar alguma substância para melhorar. O crescimento tem de aparecer nos treinos'', ensinou o jovem, um dos mais centrados do grupo.
Como a maioria, Alexandre veio de longe para tentar a carreira esportiva no Novos Talentos. Foi um dos aprovados na seletiva do Tocantins. ''Sabia que ia passar, tenho bom impulso porque jogava vôlei. A galera da escola também sabia''. Aceitou deixar tudo para trás, na pequena cidade de Formoso do Araguaia. ''Deixei minha família lá, não vim para cá para brincar'', disse ele. ''Sempre que corro, penso na minha cidade e na minha família''.
Em sua primeira edição, o Novos Talentos reúne jovens de sete Estados, entre 14 e 18 anos, que estudam pela manhã e treinam à tarde. Com a ajuda de funcionários da Rede Energia, empresa que financia o projeto, foram escolhidos 54 atletas, após uma seleção que envolveu 16 mil inscritos. Quatro desistiram antes mesmo do início e uma menina abandonou após os primeiros dias de treino.
Sobraram 23 meninas e 25 meninos. Metade deles nunca tinha tido contato com treinos de atletismo. Acompanhados por profissionais, eles agora treinam no mínimo duas horas diariamente para um tipo de projeto que faz falta no País: formação de atletas a longo prazo.
''Vale a experiência, nem que seja pela parte social'', afirmou o técnico Adriano Vittorino. ''Não é porque caso não revelemos medalhistas olímpicos, que o projeto não tenha dado certo''. Segundo Vittorino, a ideia é preencher as vagas restantes com nomes indicados por técnicos ligadas ao esporte.
Com a falta de referências no atletismo, os jovens conhecem pouquíssimos atletas do País e a maioria mal acompanhou o último Mundial, em Berlim. Paulo Henrique Alves, de 15 anos, promessa do lançamento de dardos, não sabe citar nem sequer um profissional de sua modalidade. ''Não conheço nenhum. Nunca vi, nem pela TV''.
Um dos técnicos mais prestigiados do País até o seu envolvimento em cinco casos de doping, no início de agosto, Jayme Netto era um dos incentivadores do Novos Talentos.
O projeto, que deve ser ampliado nos próximos meses, se tornou o consolo da Rede Atletismo. Com a descoberta do doping de Leonardo Elisiário, do salto triplo, nesta semana chegaram a sete os casos entre os atletas profissionais da equipe em menos de dois meses.
O time de velocistas já está desfeito e o futuro da Rede Atletismo no alto rendimento está comprometido. Principal estrela da Rede, a campeão olímpica Maurren Maggi dificilmente renovará seu contrato por causa do enfraquecimento no esporte profissional da equipe.

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