São Paulo - Quem passa de trem por Wolfsburg, cidade alemã que fica no caminho entre Berlim e Amsterdã, só vê duas grandes construções no horizonte: o estádio do Wolfsburg e a fábrica da Volkswagen. Clube e empresa estão atrelados desde 1945, quando o Wolfsburg foi fundado. Mas só no ano passado, com o aumento dos investimentos da montadora, o time de futebol conseguiu se destacar.

O título alemão, conquistado numa reta final eletrizante, após o revezamento de seis times na liderança só no segundo turno, aconteceu muito em função de dois brasileiros: Grafite e Josué. O primeiro foi o artilheiro da temporada. E o segundo, com seu estilo ''formiguinha operária'', foi o pilar do meio de campo e, quem diria, capitão da equipe, mesmo sem falar alemão fluentemente.

A estreia na nova temporada foi boa: vitória por 2 a 0 sobre o Stuttgart. Mas o maior sonho de Josué e dos 120 mil habitantes de Wolfsburg é fazer bonito na Liga dos Campeões da Europa.

Agência Estado - Como é começar a temporada como o atual campeão?
Josué - É bem diferente. Agora as equipes vão olhar a nossa de maneira diferente, com mais respeito, mais atenção.

AE - Quando você saiu do São Paulo para o Wolfsburg, sabia que era um clube sem tradição. Imaginava ser campeão um dia?
Josué - Foi surpreendente, sim. Quando cheguei aqui, o time brigava para se manter na Primeira Divisão. Mas, com a chegada do Felix Magath, um treinador de enorme respeito aqui na Alemanha, as coisas mudaram. A Volkswagen deu carta branca e ele montou um grande time. A expectativa era brigar pelo título em quatro anos, mas fomos campeões logo no segundo. E ser campeão com o São Paulo é legal, mas um título com um time de médio porte como o Wolfsburg é uma alegria dobrada.

AE - O Felix Magath foi para o Schalke 04, um dos times mais populares da Alemanha. Como tem sido o começo de trabalho com o novo técnico, Armin Veh?
Josué - Ele também tem nome aqui. Claro que não é tão famoso quanto o Magath, mas também é muito bom. Espera-se muito dele e do Wolfsburg em geral. É uma responsabilidade grande, mas nós estamos preparados.

AE - Vocês são os favoritos ao título?
Josué - Não acho. Os grandes devem continuar sendo os favoritos: Bayern, Schalke, Stuttgart... O Campeonato Alemão vem sendo um dos mais equilibrados da Europa. No ano passado, foi decidido na última rodada, e depois de ter tido vários clubes na liderança. Nós começamos muito mal e só depois reagimos. Temos de buscar um ponto de equilíbrio desde o início e nos mantermos entre os cinco primeiros sempre. Não dá para sair de décimo e conquistar o título sempre.

AE - Como você avalia o time após esta janela de transferências?
Josué - A base foi mantida. O clube fez de tudo para manter os principais jogadores e conseguiu. Eu, Grafite e Dzeko (ele pronuncia ''Tcheco'') tivemos contratos prorrogados. E ainda chegaram mais alguns reforços, porque será uma temporada mais desgastante com a Copa dos Campeões. Estamos mais fortes.

AE - Acha que dá para surpreender também na Liga dos Campeões?
Josué - Nossa ideia é passar da primeira fase e depois ver o que acontece. Temos de pensar jogo a jogo. Depois é mata-mata e as coisas mudam. Mas se surpreendemos no Campeonato Alemão, então por que não surpreender novamente?

AE - E como está a comunicação em alemão?
Josué - Em campo é bem mais simples, mas estou estudando mais para melhorar minha comunicação fora dele. Dificuldade a gente sempre encontra, mas dá-se um jeitinho. Falta muito para eu falar o alemão perfeitamente.

AE - Mesmo assim, você é o capitão do time desde o ano passado...
Josué - Isso é um grande motivo de orgulho pra mim. O capitão era o Marcelinho Paraíba, que estava aqui havia sete anos, era ídolo. Pensei no começo que não conseguiria dar conta, mas aceitei e tudo deu certo.

AE - Como é a vida em Wolfsburg?
Josué - Estou muito feliz aqui. Minha esposa adora a cidade, que é muito pacata, e meu filho já está frequentando a escola alemã.

AE - Já consegue se ver na Copa do Mundo?
Josué - Sonho com a Copa desde 2005, quando fui convocado pela primeira vez. Apesar das críticas, sei que tenho agradado ao Dunga. E depois do título alemão como capitão, as críticas diminuíram um pouco.

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