Jogos ruins, brigas: espírito de várzea domina a última rodada
Fernando Tupan
De Curitiba
O espírito de várzea com jogos de baixo nível técnico e brigas em campo, na torcida e nos vestiários se instalou de vez no Campeonato Brasileiro. A confirmação veio nos sete jogos disputados anteontem à noite, que tiveram oito expulsões e média de apenas 1,86 gol marcado recordes negativos do torneio.
No total, foram aplicados 40 amarelos, 15 só no jogo em que o Guarani derrubou o então último invicto do torneio, o Vasco.
A média de cartão vermelho, que era de 0,47/jogo, subiu para 1,1 na rodada (aumento de 135%). A versão 99 do Brasileiro é a mais violenta dos últimos 14 anos, com média de 56,8 faltas por partida. Em Belo Horizonte, no Estádio Independência, atletas de Atlético-MG e Vitória se envolveram em uma briga generalizada após os baianos vencerem por 2 a 1.
A mesma situação aconteceu em Curitiba, onde jogadores do Atlético-PR e do Paraná brigaram após o empate em 1 a 1. A violência e a pobreza técnica das partidas tiveram reflexos na arquibancada. Torcedores do Atlético-MG, incluindo mulheres e adolescentes, foram agredidos por policiais depois do jogo. O comandante da PM no estádio, major Adenilson Cabral, disse que eles provocaram, jogando pedras e mastros de bandeiras.
No Canindé, torcedores da Lusa tentaram invadir o vestiário do time para agredir os jogadores, que perderam para o Santos a terceira partida seguida no Brasileiro.
A CBF (Confederação Brasileira de Futebol) informou ontem que ainda estuda uma medida em relação a esses casos. Na segunda-feira, o presidente da Comissão de Arbitragem da entidade, Armando Marques, disse que o campeonato não está violento, já que ninguém está machucado. Dentro de campo, o fato mais negativo da rodada aconteceu em Campinas, onde o lateral vascaíno Gilberto foi expulso depois de uma entrada excessivamente desleal em Marcinho, do Guarani.
Se ele não tivesse saltado, certamente teria uma lesão nos ligamentos do joelho. A violência está crescendo e não é coibida, disse ontem o fisioterapeuta Cláudio Frias, do time campineiro. Os árbitros têm mostrado indecisão em campo. Usam critérios diferentes para punir um mesmo tipo de jogada violenta. Isso vai acirrando os ânimos, afirmou o diretor executivo do Atlético-MG, Bebeto de Freitas.
Para o presidente do Vitória, Paulo Carneiro, cada clube é que tem de controlar seus jogadores. Alguns querem relacionar o aumento da violência à mudança na regra dos cartões amarelos, mas é uma questão de filosofia do clube. Reduzimos as faltas do Vitória com um trabalho de conscientização. Em 11 partidas, tivemos só duas expulsões e apenas três atletas com mais de três cartões amarelos, afirmou. Até o ano passado, o jogador cumpria suspensão ao receber o terceiro cartão amarelo. Agora, a suspensão vem no quinto.
As reclamações e as agressões que aconteceram logo após o clássico entre Atlético e Paraná podem levar o Estádio Joaquim Américo a ser interditado pela CBF. O árbitro Evandro Rogério Roman disse ter relatado todos os acontecimentos na súmula da partida, enviada ontem para o Rio de Janeiro.
A confusão começou porque o árbitro validou um gol 30 segundos além do tempo regulamentar e encerrou o jogo aos 50 minutos e 30 segundos, após a saída da bola. Antes de Roman sair de campo ele foi cercado pela polícia e pelos jogadores atleticanos.
A polêmica foi engrossada pelos torcedores, radialistas e jogadores, acusando o árbitro de ser complacente com a violência. Ele não teria mostrado o cartão para Reginaldo Vital, que agrediu, fora do lance, o meia Kelly, com pontapés, em sua frente. Roman não quis falar sobre o que teria escrito na súmula. Ele se justifica: É uma orientação do Departamento de Árbitros.
O juiz estava chateado com as acusações dos dirigentes atleticanos de ter complicado partidas do Atlético. Antes deles me acusarem, primeiro precisam conhecer o homem, pediu Roman.
As acusações podem gerar uma ação por injúria, calúnia e difamação. Profissional desde 1994, Roman pretende acionar os dirigentes atleticanos na Justiça, com apoio da Associação dos Árbitros. Eles estão equivocados; eu apenas segui o regulamento. Voltando de Curitiba, eu li uma matéria falando que o Barcelona empatou a partida aos 48 minutos.
O presidente Nelson Fanaya declarou às rádios que Roman teria sido tendencioso, favorecendo o Paraná Clube no final da partida. O coordenador de futebol, Samir Haidar, engordou o coro, afirmando que esse árbitro sempre apita a favor do adversário do Atlético.





