Jogo da Seleção prejudica sacoleiros
Paulo Briguet
Enviado da Folha
As ruas de Ciudad del Este estão enfeitadas com bandeiras, faixas e cartazes. A população, em geral, parece animada com a Copa América. Em cada esquina, ambulantes vendem camisas do Brasil e do Paraguai (há até um modelo que mistura as duas seleções). A televisão local não se cansa de anunciar o slogan Arriba, Paraguay! Mas há uma legião de personagens da fronteira que não entrou no clima da competição: os sacoleiros. Para eles, a Copa América só tem dado prejuízo. Ontem, dia de jogo da Seleção Brasileira, foi uma quarta-feira atípica para Ciudad del Este. Em geral, as quartas (e sábados) são os dias de maior movimento de muamba na Ponte de Amizade. O chefe da Aduana brasileira, Daniel Alcazar, diz que cerca de 300 ônibus turísticos - o veículo preferido dos sacoleiros - passam pela fronteira em quartas-feiras normais. Ontem, não foram mais que 100.
As lojas de Ciudad del Este estavam com movimento bastante reduzido. A maioria dos lojistas fechou as portas mais cedo hoje, diz Victor Paes Coll, proprietário do Greta Shopping. Às 17 horas (16 horas, no Paraguai) quase todas as lojas estavam fechadas. Segundo ele, esperava-se um movimento maior de turistas durante a competição. Não foi o que aconteceu, afirma Paes. O comércio de Ciudad del Este hoje atende mais aos sacoleiros. Com muita polícia e fiscalização, eles se afastam.
A imagem do medo está na fila da Ponte da Amizade. Marli Oliveira da Silva, apenas no seu segundo dia de sacoleira, já teme cair no pente fino da Receita. Leva brinquedos e bonecas nas imensas sacolas azuis. Estou muito nervosa, porque posso ter um prejuízo grande, confessa.
Marli teve motivos para se preocupar. Com o movimento menor, aumenta a chance de cair nas malhas da Receita Federal. Entre os que foram ao Paraguai, muitos se arrependeram. É o caso de um grupo que vem semanalmente de Ponta Grossa, caiu na Receita e passou apenas 30% da mercadoria comprada. Tivemos azar. Era preciso ter vindo mais cedo, disse Eduardo Castro, há 10 anos atuando como comprista. A coisa está difícil desde a alta do dólar, mas hoje foi um dia dos piores, completa o sacoleiro Augusto Machado.
O atacante Ronaldo, o famoso, foi cobrado pelo sacoleiro Lindomar Mendes da Silva, há seis anos transportando uísque na fronteira. Ele saiu devendo da Copa do Mundo, vamos ver se paga na Copa América, comenta Lindomar. Por falar em pagamento, o sacoleiro observa que a partida Brasil x Venezuela em Ciudad del Este diminuiu seu ganho em 20%. Dava pra fazer mais uma viagem com mercadoria, se não fosse dia de jogo, diz. Ele mora em São Paulo e viaja duas vezes por semana levando a bebida. Mas, no próximo sábado, Lindomar não virá à fronteira. Será dia de jogo da Seleção. Menos R$ 150,00 no bolso do sacoleiro.Com a partida do Brasil, cai o comércio de importados em Ciudad del Este e aumenta a chance de cair nas malhas da Receita Federal
Ney de SouzaToque de recolherSacoleiro guarda mercadorias: Ciudad del Este viu ontem apenas um terço dos conhecidos ônibus de turismoNey de SouzaLindomar: ontem, 20% menosNey de SouzaMarli: compras e nervosismo





