Jogadores trocam País do futebol por dólares
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sábado, 23 de outubro de 2004
Thiago Mossini<br> Reportagem Local 
Há alguns anos o sonho de qualquer garoto que tentasse a sorte no futebol era ser jogador em algum grande clube do Brasil, de preferência o do coração. Hoje, isso virou raridade. Qualquer menino prefere os dólares, que a carreira no exterior pode proporcionar, a atuar no futebol brasileiro.
A febre começou ou aumentou quando a Lei Pelé passou a vigorar. A partir daí, os jogadores tiveram a vida facilitada para esse tipo de negociação. Sem o passe, que os prendia aos clubes, cada um virou dono do próprio nariz. Somente este ano, 87 jogadores deixaram o futebol parananse com os mais diversos destinos. Desde os países sem tradição como Bósnia, Irã, El Salvador e Moldávia até os poderesos e milionários Portugal, Espanha e Itália.
O aparecimento de novos mercados, como o leste europeu e o Oriente Médio, também foram fundamentais ao advento da ''exportação'' de jogadores, principalmente os desconhecidos do mercado brasileiro. A maioria dos atletas que atuam lá fora se enquadram neste grupo. Alguns, por talento ou sorte, conseguem se destacar e chegam até a se naturalizar buscando espaço em outras seleções, como é o caso do meia-ofensivo Deco, em Portugal, e do atacante Kuranyi, na Alemanha.
O número de empresários que se dedicam exclusivamente a mandar atletas para outros países também aumentou. Usam os mais variados meios para mostrar seus ''clientes''. Fitas, DVD's, currículos e muitas viagens.
''Mando material de cinco ou seis jogadores por mês, mas os negócios demoram uns seis meses pelo menos para sair. Se o clube gosta, alguém vem ver o jogador aqui e depois o leva'', revelou Aldivino Generoso, procurador dos meias Germano e Valdeir e dos atacantes Marcelo Silva e Anderson Lobão e que está no ramo desde 96. O principal mercado dele é a Coréia do Sul. Por isso, participou das transferências do lateral-direito, Valentim, do meia Caio e do atacante Renaldo no início do ano. Recentemente, também conseguiu negociar os atacantes Dudu, ex-Londrina e Cruzeiro, e Rinaldo, que ainda é artilheiro da Série B, quando jogava com a camisa do Fortaleza. ''Mas é difícil. A cada 20 jogadores mostrados, consigo negociar um'', exemplificou.
Salários Embora pequenos para os padrões europeus, os salários conseguidos lá fora são melhores do que os brasileiros e possuem um diferencial: são pagos em dólar. Em países com pouca expressão, paga-se em média US$ 2 mil para atletas desconhecidos. Mas existem ainda os que jogam somente por uma ajuda de custo. ''Que ninguém pense que vai ganhando dinheiro fácil porque não vai'', alertou o vice-presidente de futebol do Londrina e procurador de jogadores, Persius Sampaio.
O lateral-esquerdo Alex se transferiu da Lusinha para a República Tcheca em 2002, recebendo US$ 500 livres de despesas. Depois de três meses passou para US$ 2 mil. Com a mudança para a Dinamarca, em 2003, o rendimento dobrou, com um contrato de um ano. Com a transferência para a Suíça, este ano, o salário foi para a casa dos US$ 5 mil.
Neste universo que parece ser só de sonhos, também existem os pesadelos. O meia Robert, 26 anos, que o diga. Desembarcou em Moscou pensando em sair de lá depois de alguns anos e com muitos dólares ganharia de US$ 5 a US$ 8 mil mensais. Regressou ao Brasil depois de cinco dias com um currículo na mão e uma grande frustração. Os três empresários que cuidavam da transferência não entraram em acordo financeiro e ele foi obrigado a voltar. ''Perdi minha grande chance financeira'', lamentou o jogador, que disputaria a Primeira Divisão russa pelo Alania e terá que se contentar em mostrar seu futebol no Campeonato Paranaense pelo Cianorte, para onde foi emprestado pela Portuguesa Londrinense.


