Ulsan - Depois de Roberto Carlos ter afirmado que bastava ao Brasil jogar 40% do que sabe para vencer a Turquia, e em campo ter visto que não era bem assim, agora a seleção dedica o seu desprezo – desta vez ainda mais profundo – aos próximos adversários do Grupo C, China e Costa Rica. Ontem, enquanto chineses e costarriquenhos se enfrentavam em Gwangju, num jogo transmitido ao vivo pela televisão sul-coreana, a maioria dos jogadores brasileiros estava pelas ruas de Ulsan, curtindo a folga concedida após a vitória sobre a Turquia.
Na teoria, o discurso da equipe nacional sobre humildade e respeito aos adversários é afinado: o chavão ‘‘não há mais bobo no futebol’’ é repetido à exaustão, e a vitória do Senegal sobre a França na abertura da Copa do Mundo deu-lhe ainda mais fôlego. Na prática, entretanto, o time não demonstrou interesse em conhecer os rivais que vêm por aí.
Alguns, como Rogério, foram surpreendidos ao descobrir que a partida, vencida pela Costa Rica por 2 a 0, estava em curso. ‘‘Já começou?’’, perguntou o goleiro do São Paulo, ao ser questionado sobre o assunto e olhar com surpresa as imagens exibidas num telão no lobby do hotel onde a seleção se hospeda. Corria o segundo tempo do jogo.
‘‘Ah, nem sabia que era agora’’, disse Rogério, que saiu apressado. ‘‘Vou comprar umas coisas num shopping aqui perto e subir para assistir ao DVD’’, afirmou.
Logo depois, o zagueiro Lúcio também deixou a concentração do Brasil rumo às compras. Na porta do hotel, um jornalista chinês lhe perguntou: ‘‘Você conhece o time da China?’’. Lúcio olhou para o telão em que estava sendo exibida a partida, balbuciou um ‘‘só o que a gente está vendo’’ e entrou no táxi.
No horário do confronto entre os dois rivais, pelo menos outros 11 jogadores haviam deixado a concentração: Rivaldo, Roberto Carlos, Juninho, Denílson, Kaká, Belletti, Edílson, Luizão, Júnior, Kléberson e Gilberto Silva.
Luiz Felipe Scolari acompanhou a partida pela TV, de seu quarto no hotel, e não emitiu comentários sobre a vitória costarriquenha. Se por um lado impediu os brasileiros de conhecerem o que terão pela frente, o desprezo pelo confronto de ontem os poupou de assistir a um dos piores espetáculos da Copa até agora, com pouca técnica e lances bisonhos.
Antes de o jogo começar, o técnico dissera, em entrevista coletiva, que iria exibir para seu time vídeos sobre a China, adversário do próximo sábado, ‘‘com todos os detalhes dos atletas chineses’’. E completou: ‘‘Depois mostraremos teipes da Costa Rica. Com os dados, os atletas terão amplo conhecimento dos adversários’’.
Nos dias que antecederam a estréia contra a Turquia, um jogo vencido pelo Brasil somente com a ajuda do árbitro, Scolari havia mostrado aos jogadores vídeos com partidas dos turcos. De acordo com o técnico gaúcho, os adversários entrariam em campo num esquema 3-3-3-1, mas não foi o que se viu no estádio Munsu, quando a seleção da Turquia atuou a maior parte do tempo num 3-5-2.

mockup