Jogadores apontam preconceito
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quarta-feira, 17 de março de 1999
Agência Estado 
A declaração do atacante de vôlei Lilico, do Barão Ceval, de Blumenau-SC, de que não foi convocado para a seleção brasileira por ser homossexual, e as ameaças de processos entre o ala Almir, do Flamengo, e o técnico de basquete Marcel Souza, do Pinheiros, por acusação de racismo, mostram uma face pouco conhecida no esporte: o preconceito. Não necessariamente das maiorias contra as minorias, mas também dos efeitos que o peso do preconceito causam nos próprios integrantes dos grupos minoritários.
O atacante Lilico, o primeiro atleta brasileiro a admitir publicamente ser homossexual, acha que não tem chance de defender a seleção por ter tido coragem de revelar sua opção sexual. Tenho certeza de que este é um dos motivos por não ser convocado, comenta o atleta, de 22 anos e 2,00 metros. Estou tendo uma ótima participação na Superliga e queria ter meu trabalho reconhecido.
Lilico conta que decidiu admitir sua preferência sexual em 1995, ainda quando defendia o Banespa. Por isso, não acredita que o técnico Radamés Lattari Filho, da seleção, não conheça o fato. Todos no vôlei sabem, diz o jogador, que pretende transferir-se para o exterior na próxima temporada. Sei que tenho de arcar com as consequências de minha decisão.
Radamés ficou aborrecido com a declaração do atleta. Não convoquei o Lilico do mesmo modo que não chamei o Pezão, o Dirceu e o Anderson, que também estão tendo boas atuações na Superliga, comenta. Optei por outros jogadores, exclusivamente por critérios técnicos.
O ex-jogador e técnico Marcel de Souza disse que está inconformado de ver o seu nome envolvido em acusações de racismo. Sou incapaz de discriminar e não tenho preconceito racial, religioso ou social. O técnico jura que não usou termos como crioulo ou macaco para ofender o jogador Almir durante a partida contra o Flamengo. Não posso pedir desculpas porque não disse isso.
Marcel anunciou que iria encaminhar recurso ao Superior Trubunal de Justiça Desportiva, no Rio, pedindo, com base na Lei Pelé, direito de defesa na decisão da Confederação Brasileira de Basquete (CBB) de suspendê-lo por três partidas. Marcel disse que procurou a CBB toda a tarde de terça-feira, por telefone, e não conseguiu falar com o responsável pelo Departamento Técnico da entidade.
A CBB disse que as informações de ocorrências relatadas pelos delegados que acompanham as partidas têm julgamento sumário, sem direito a defesa, como deseja Marcel. Segundo a entidade, o regulamento do Campeonato Nacional, aprovado pelos clubes, prevê isso. Não posso aceitar a decisão porque estaria admitindo que tenho culpa, disse Marcel.
O vice-presidente Jurídico do Flamengo, Júlio Gomes, disse que entrará com uma ação cível e outra criminal contra o técnico do Pinheiros por ter ofendido Almir com palavras preconceituosas. Segundo Gomes, o jogador, a princípio, não pensava em recorrer à Justiça, mas mudou de opinião depois de ter lido nos jornais que Marcel negou as ofensas. Esperávamos que o Marcel tivesse a educação e a ombridade de telefonar para o Almir se desculpando, afirmou.
Marcel disse que responderá qualquer ação judicial com uma queixa crime por denunciação caluniosa. Aí vamos brigar na Justiça. O técnico também garante ter testemunhas.


