Jogadore$ são negócio rentável e barato
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sábado, 18 de agosto de 2007
Eduardo Maluf<br> Agência Estado 
São Paulo - Contratar jogador brasileiro, nos anos 80 e início dos 90, era negócio de risco. Sócrates, Zico, Marcelinho Carioca, Viola, entre muitos outros, foram, voltaram e não deixaram saudade. Hoje, na média, os brasileiros representam fonte de lucro inestimável, jogando para segundo plano os melhores fundos de investimentos, as bolsas e os imóveis. A valorização é impressionante. E, mesmo quando a aplicação não traz o retorno esperado - ou não traz retorno -, o prejuízo é pequeno. O motivo: nossos craques estão saindo cada vez em mais quantidade e por preços menores.
A transação de mais repercussão agora na Europa é a do baiano Daniel Alves. Após bom desempenho pelo Bahia em 2001 e 2002, transferiu-se para o Sevilla em 2003 como boa revelação da lateral-direita. O valor: US$ 1,35 milhão. O Chelsea, da Inglaterra, tenta contratá-lo. E, de acordo com a imprensa espanhola, está disposto a oferecer 32 milhões de euros.
Daniel, quando deixou o País, era um jovem já de alto nível, ótima promessa. Mas foi embora precocemente, como inúmeros outros atletas: Alexandre Pato, Vágner Love, Kaká, Pepe (desconhecido até o mês passado)... Os clubes brasileiros temem perder a oportunidade de fazer dinheiro e, muitas vezes, se desfazem de seu candidato a ídolo na primeira proposta. Bom para os europeus, que lucram e, cada vez mais, mandam representantes ou dirigentes para buscar matéria-prima no futebol cinco vezes campeão mundial.
''Faltam bons jogadores no mundo inteiro'', observa Gilmar Rinaldi, ex-goleiro e empresário. O procurador do atacante Adriano, da Inter de Milão, lembra da crise mundial de talentos na atualidade. O mercado acaba recorrendo ao Brasil, que, além de ter atletas acima da média, produz em grande quantidade e por preços mais que acessíveis.
O São Paulo, por exemplo, cedeu Josué ao modesto Wolfsburg, da Alemanha, por apenas US$ 1,7 milhão (R$ 3,4 milhões). A explicação da diretoria para liberá-lo tão facilmente foi a proximidade do fim do contrato. Mas por que não tentar a renovação? Josué era um dos principais nomes do time e foi titular da seleção na Copa América. Os dirigentes dizem não poder frear a carreira do atleta, que foi buscar no Velho Continente melhores condições para a família. Nada disso está errado. É só um sinal da fragilidade financeira do País.
Os problemas econômicos atingiram de forma pesada o futebol brasileiro há cerca de 10 anos. Grandes agremiações, como Corinthians e Flamengo, estão endividadas e precisam se desfazer de peças importantes de seu elenco para minimizar o déficit e pagar as contas.
Clodomil Orsi, presidente em exercício do Corinthians, se vê em situação delicada no caso Willian, que interessa ao Shakhtar Donetsk, da Ucrânia - a proposta seria de US$ 18 milhões. Como ele mesmo diz, os cofres do Parque São Jorge suplicam por esse dinheiro. Mas o time, que luta para se afastar da zona de rebaixamento, não pode mais perder bons jogadores.
O procurador de Robinho, Wagner Ribeiro, filiado a Juan Figer (o mais influente empresário do mundo), revelou à Agência Estado que, recentemente, recebeu ligações de diretores de grandes clubes do Brasil pedindo que encontre compradores para jogadores de seus elencos. ''Existem dois ou três clubes importantes que me pedem, desesperados, para negociar seus jogadores porque precisam de dinheiro'', diz Ribeiro.
Gilmar Rinaldi já recebeu sondagem parecida. Algo que não lhe causa nenhuma surpresa. ''O mercado aqui sempre quer vender, porque não é fácil pagar as contas'', justifica. ''O problema é a estrutura dos clubes brasileiros.'' O empresário afirma não entender como ainda não há gestão profissional - aqui os presidentes e a maioria dos diretores não são remunerados e se perpetuam no cargo. E contesta, por exemplo, a existência de clubes sociais misturados ao futebol. O social, hoje, dá prejuízo e tira verba do futebol.
Exceção - Alexandre Pato, jovem de 17 anos, rendeu bons 20 milhões de euros ao Internacional, sem quase ter jogado. É uma exceção hoje no Brasil. Kaká, por exemplo, saiu há quatro anos por US$ 8,2 milhões. O Real Madrid tentou tirá-lo do Milan por 60 milhões de euros. O zagueiro Pepe, recém-chegado ao Real, se despediu do Porto por 30 milhões de euros. Pepe havia deixado o Brasil, há cinco anos, por menos de R$ 1 milhão. O CSKA Moscou recusou oferta de 12 milhões de euros pelo atacante Jô. Há apenas um ano e meio, o jogador trocou o Corinthians pela Rússia por US$ 5 milhões.


