O novo técnico da seleção brasileira de futsal, Paulo César de Oliveira, 45 anos, o PC, esteve ontem em Londrina ministrando aulas para alunos do curso de pós-graduação em futsal da Unopar e falou com a reportagem da Folha sobre a reformulação da equipe, que disputará o próximo Mundial da modalidade no Brasil, em 2008. PC abordou o nível crescente das seleções européias, principalmente a da Espanha atual bicampeã mundial , falou sobre a evasão precoce de jogadores brasileiros para a Itália e sobre a construção do primeiro centro de treinamento das seleções brasileiras de futsal.
PC é paulista de Araraquara e está no comando da seleção desde junho do ano passado, tendo dirigido três clubes grandes na Liga Futsal desde 1996: Internacional-RS, Ulbra-RS e GM/São Paulo. Em 2004 foi para o Playas de Castellon, da primeira divisão espanhola, de onde retornou para assumir a seleção. Leia abaixo trechos da entrevista de PC à Folha.


Folha Domingo tivemos mais uma final de Copa do Mundo decidida nos pênaltis, na qual prevaleceu a organização tática das duas equipes e ambas se arriscando pouco ao ataque. O futsal também vem sendo marcado por placares baixos, muita marcação e decisão de vaga nos pênaltis. Assim o Brasil foi eliminado pela Espanha, no último Mundial da China, em 2004. Como você vê isso?

Paulo César de Oliveira É uma tendência mundial, até porque a preocupação maior hoje é com o condicionamento físico dos atletas, usando-se muito a força, para se premiar a defesa. E o ataque tem sofrido com isso. A marcação é cada vez mais implacável, como se viu na Copa agora. E algumas equipes estão tentando fugir dessa mesmice tática para fazer a diferença. A Espanha conseguiu. Encontrou um sistema de defesa confiável, capaz de vencer o Brasil, o que virou uma vantagem competitiva, aliado à tática e à técnica dos jogadores. Esperamos melhorar isso na seleção brasileira. Como a grande maioria dos nossos atletas joga na Europa, vamos buscar ter um maior controle físico e de peso desses jogadores em seus clubes na Europa, para melhorar o nível de apresentação deles à seleção.

Folha A final do último Mundial foi Espanha x Itália (a Espanha foi campeã). Como você vê o nível atual do futsal europeu?

PC Estamos tentando entender o futsal deles, que cresceu muito nos últimos anos em função da ida de brasileiros para lá. Vamos pegar o que de bom eles têm para buscar premiar a técnica do jogador brasileiro. Além disso, precisamos ter um sistema de defesa confiável, principamente para jogar contra os europeus.

Folha A condição física dos brasileiros deixou a desejar no último Mundial?

PC Nossa grande diferença para os europeus é o nível de preparação. Eles têm muito mais tempo, têm um calendário planejado, treinaram pelo menos um mês para disputar o Mundial enquanto a seleção brasileira teve apenas uns dez dias. Isso prejudicou demais a comissão técnica da época nos dois últimos Mundiais (o treinador era Fernando Ferreti). Agora, com a troca de visão das pessoas que estão no comando das seleções brasileiras na atualidade, esperamos profissionalizá-las e estruturá-las.

Folha Quais as principais virtudes dos espanhóis e italianos?

PC Depois que eles aceitaram que individualmente o jogador brasileiro é muito bom, passaram a treinar a defesa no ''um contra um'' e a investir num trabalho tático que fosse consistente para jogar contra o Brasil. E com a defesa deles funcionando, isso passou a gerar uma impaciência no jogador brasileiro, que é impaciente no ataque. Sendo assim no ataque, a gente sabe que ele é irresponsável na defesa. E a Espanha soube aproveitar muito bem esses momentos. E ela é consistente enquanto grupo, é muito forte coletivamente e soube aproveitar esses deslizes dos brasileiros, que não souberam respeitar uma equipe que está crescendo e que hoje é melhor que a nossa.

Folha O que fazer para recuperar o espaço?

PC A Confederação Brasileira de Futsal (CBFS) está construindo o seu centro de treinamento, em Fortaleza, com toda a infra-estrutura para receber e preparar os atletas. A primeira fase já está concluída e todo o complexo deve ficar pronto até 2008. Esse é o primeiro passo, porque nunca tivemos uma estrutura física para as nossas seleções. Lá teremos um controle físico maior dos atletas, com o auxílio de fisiologista, psicólogo, nutricionista, preparadores e fisioterapeutas. É uma equipe que dará ao jogador a melhor condição possível.

Folha O futsal está incluído no Pan de 2007. Há risco de ser cortado dos Jogos pela Odepa (Organização Desportiva Pan-Americana), como se especulou?

PC Estou em contato com o COB uma vez por semana, o cronograma está sendo cumprido, já me pediram até uma relação dos atletas, por isso não acredito que isso vá acontecer. Estamos com toda a programação do segundo semestre já pronta e vamos jogar inclusive torneios por conta do COB na China e em Macau.

Folha Quando teremos futsal em Olimpíadas?

PC Dificilmente teremos enquanto ainda tiver o futebol nos Jogos. Há uma briga entre a Fifa e o Comitê Olímpico Internacional. O COI quer mais jogadores profissionais acima de 23 anos em Olimpíadas e a Fifa não quer, porque isso vai caracterizar uma Copa. E ela não quer uma Copa do Mundo a cada dois anos. Se a Fifa pressionar a seu favor, existe uma possibilidade de o futebol sair definitivamente dos Jogos. Aí sim o futsal poderá entrar.

Folha Como é a reformulação que você está fazendo na seleção adulta?

PC A geração anterior foi muito boa. Infelizmente ela perdeu dois Mundiais e não é por isso que deva ser crucificada. Mas ficaram uns cinco jogadores que ainda têm idade e vão estar no Mundial de 2008 (seriam Falcão, Schumacher, Lenísio e Vinícius). E vamos mesclar com uma geração que está chegando, de 18 a 20 anos. Entre essas duas gerações ficou um buraco, com o pessoal de 20 a 24, que saiu muito cedo do País, principalmente para a Itália. Temos que tentar conter essa saída e dar a esses garotos o sonho de estar na seleção brasileira, porque hoje só pensam em ir embora. Por isso é que está sendo feito o Centro de Treinamento e com ele vamos fazer as seleções Sub-20, Sub-17, Sub-15 treinarem por períodos mais longos no País.

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