Joelho malsinado
Joelho
malsinado
E o que devia ter sido a tarde da ressurreição acabou sendo a tarde da imolação. Ronaldo perde, mais uma vez, a batalha contra um joelho malsinado. O acidente foi absolutamente impressentido. Ronaldo iniciava uma aceleração, só ele e a bola. Uma ação típica do seu estilo. Ninguém o fustigava. Era a terceira iniciativa dele, no jogo.
O que me impressionou é que a contusão se deu num simples gesto de gingar o corpo. Não chegou a haver um mínimo de desequilíbrio. O movimento provocou, no máximo, uma pequena carga sobre a perna direita. Pensei no ato: quanta fragilidade, meu Deus! É sabido que o joelho é a articulação mais crítica do corpo humano. Mas, no caso, o esforço foi quase nada.
No teipe, em câmera lenta, dá pra ver a rótula estufar, deformando a pele. Uma visão aterradora. A cena chocou o campo inteiro, o estádio inteiro e, certamente, milhões de espectadores que, como eu, estavam na tevê, torcendo pelo renascimento do atacante símbolo, patrimônio do futebol mundial, embaixador das crianças carentes do planeta. Todos compadecidos pelo desfecho brutal.
Uma desolação. Só os médicos poderão avaliar a dimensão do acidente. Ainda assim, a perspectiva me parece sombria. No mínimo, Ronaldo está fatalmente condenado a nova e longa provação. Sei que é um jovem. Sei que a medicina esportiva dispõe de meios pra reinventar a rótula de Ronaldo. Haverá, contudo, uma limitação motora que poderá comprometer justamente a arma mais poderosa de Ronaldo que é a aceleração vertiginosa.
Gostaria muito que Ronaldo soubesse, lá em Paris, que as lágrimas que lhe banharam o rosto de dor e tristeza no instante do acidente são as mesmas que choramos todos jogadores, técnicos, torcedores, jornalistas todos, repito, movidos pela virtude singular da compaixão, no que contém de fraternidade, de respeito, de doçura esse belo sentimento cristão.
Taça carnificina
A Taça Davis é uma instituição secular do tênis. Tem ares de Copa do Mundo. O confronto é de nações e não de individualidades, como ocorre no circuito da ATP. Tem um charme indiscutível, com uma pitada de nacionalismo que não faz muito bem ao esporte, mas que acaba sendo de grande apelo popular.
Há, contudo, um traço conservador que precisa ser repensado. Não faz o menor sentido que uma competição dure oito, nove horas seguidas de um dia. Ninguém suporta o massacre de duas partidas de simples, cada uma com cinco sets, como acontece na Davis. O atleta é física e mentalmente espoliado, como aconteceu com Guga e Kucera, no forno crematório de Marapendi.
É claro que o público brasileiro não conhece as regras básicas de conduta, durante uma partida de tênis. A Davis é benevolente com a torcida mas há limites. Como, porém, será possível conter o ânimo de uma platéia submetida ao suplício de um espetáculo, durante oito, nove horas de sol abrasador? A multidão tem arroubos que a própria paixão desconhece. Perde a cabeça por tudo e por nada.
Quem se dispuser a parar pra pensar verá que a fórmula da Taça Davis está ultrapassada. Que se limite a simples a uma série de três sets, com tie-braker, de ponta a ponta.
Como é disputada, a Davis não é uma competição, é uma carnificina.
RÁPIDAS E RASTEIRAS
- Boris Becker está lançando um livro autobiográfico. Chama-se Deixe-me viver. Sairá em junho e, segundo seus assessores, vai chover chumbo grosso nos bastidores do tênis mundial.
- Dois esportes decidiram fazer exame em seus atletas, antes de começar a Olimpíada de Sydney. São eles o ciclismo e o pentatlo moderno. A decisão é das respectivas federações, que já fazem o dito exame nas suas competições oficiais. O propósito é saber qual a taxa de hematócritos no sangue do atleta. Se a cifra for acima de 50, o atleta fica fora da competição. O cão danado do esporte de alto nível, em matéria de doping, hoje, é a Eritropoetina, também conhecida pela sigla EPO. É um anabolisante da pesada.
- O futebol americano voltou a adotar o teipe como última palavra nos lances duvidosos. A Liga Nacional chegou a usar o recurso, mas, há dois anos, deu última forma. Agora, a câmera voltou e voltou com força total. Em caso de dúvida, o árbitro principal suspende o jogo, entra numa cabine ao lado do campo e roda o vetê. O juízo final virá do que registrou o olho eletrônico.
- O Vasco da Gama tem o melhor time do Rio, longe, mas é fora de dúvida que a Federação, manipulada por Eurico Miranda, monta a tabela do campeonato com indisfarçável intenção de proteger aos interesses vascaínos. Flamengo, Botafogo e Fluminense sabem disso, sofrem com isso, mas não têm cacife político pra acabar com os arranjos espúrios do cidadão Caixa DÁgua.
- Eu, se fosse o Bernardinho, usava o pátrio poder de marido, pra obrigar Fernanda Venturini a voltar à seleção de vôlei. O que a moça está jogando no Rexona é um monumento. Se Bernardinho não dispuser do tal pátrio poder, então, que usemos o poder da pátria pra escalar Fernandinha em Sydney.
- Edmundo, do Vasco, está preocupado com a deterioração de sua imagem pública. Entregou a uma importante agência de marketing esportivo a tarefa de refazer sua reputação. Cansou de ser o Animal.





