São Paulo - Defender a ''tolerância zero'' contra o doping é a opinião do campeão olímpico Joaquim Cruz, que também é dono de uma medalha de prata, ambas nos 800 metros. Na Olimpíada de Seul, em 1988, ele sofreu um dos maiores prejuízos da carreira por causa de um comentário sobre doping.
Joaquim que ainda corre ''para manter a forma e não envelhecer'' disse que adora ''o contato com os atletas brasileiros'' como consultor da BM&F. Falou à Agência Estado sobre um dos momentos mais tensos e polêmicos de sua carreira, os Jogos Olímpicos de Seul, marcados por escândalos de doping. Na época, ao ser entrevistado Joaquim declarou que a velocista Florence Griffith Joyner (que morreu no ano passado, aos 38 anos) parecia um homem, referindo-se à sua força física, e a irmã, a heptatleta Jackie Joyner-Kersee, um animal, pelo excesso de pêlos. As declarações geraram tanta polêmica que deixaram Cruz sem concentração para correr os 1.500 metros.
AE - O que representou aquela polêmica?
Joaquim Cruz - Em uma Olimpíada você tem de ser o senhor de suas emoções, é você e Deus. Ao mesmo tempo, fica absolutamente vulnerável. Não pode deixar que coisas em sua volta desviem a atenção. Em 1988, eu me deixei envolver por algo que não era o meu foco. Fiz um comentário no lugar errado e na hora errada e aquilo prejudicou a minha carreira esportiva.
AE - Mas o que você acha sobre doping?
Cruz - O correto é tolerância zero. Foi pego uma vez, tem de sair do esporte. Ou então vamos fazer uma prova só para dopados. O atleta tem de condicionar o seu corpo para ver até que ponto vai alcançar com suas condições físicas e mentais, naturalmente. É contra os princípios do movimento olímpico.
AE - Essa morte prematura de Florence, ainda hoje a recordista mundial dos 100 e 200 m...
Cruz - Não é mais hora de falar nada. Ela não está mais entre a gente. É o momento de respeitar a mulher, a mãe, a esposa que foi. A vida é continua. Temos de mostrar que a droga não é o caminho. Eu cheguei a uma Olimpíada sem a droga. Se eu consegui, que dirá quem vive no século 21 com mais oportunidades e informações.
AE - O que está fazendo nos Estados Unidos?
Cruz - Trabalhando como personal trainner.
AE - O seu pé ainda dói, depois de seis cirurgias no Tendão de Aquiles?
Cruz - Hoje não tenho dor, mas foi difícil. Era excesso de uso... coisa de louco.
AE - O que mais te agradava?
Cruz - Sinto saudades do processo. De como era começar o ano fora do peso, fazer o primeiro trote aí como dói... ir condicionando o corpo e sentir que ele responde cada vez mais até chegar a hora de competir. Da competição em si eu não tenho saudades, mas eu gostava dos dragõezinhos que se derruba todos os dias.
AE - Comente um momento especial.
Cruz - O meu 1min44s, do recorde juvenil; a Olimpíada de Los Angeles alcancei aquele objetivo, é o máximo; o recorde que eu quase quebrei; a medalha de prata, após um processo de contusão; chegar a uma olimpíada após tantos problemas e ter a oportunidade de ser o porta-bandeira do Brasil, em 1996...
AE - E os seus meninos de Brasília?
Cruz - Vou cobrar uma promessa antiga do governador Joaquim Roriz (DF) de construir uma pista em Taguatinga. É um compromisso moral que tem comigo e social com a comunidade.

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