João do Pulo é enterrado em Pindamonhangaba
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domingo, 30 de maio de 1999
Por Júlio Ottoboni 
Pindamonhangaba, SP, 31 (AE) - Uma chuva fina cobria Pindamonhangaba hoje pela manhã, molhando lentamente o rosto das centenas de pessoas que velavam o corpo de João do Pulo do lado de fora da Igreja São José. Os corredores e bancos do templo estiveram lotados durante toda a noite de domingo até momentos antes do início do cortejo fúnebre. Seis cabos do Exército faziam a guarda de honra do caixão coberto pela bandeira nacional, colocado nas proximidades do altar. O céu azulado demorou a aparecer, mas surgiu pouco antes da 9 horas quando o cortejo fúnebre teve início e com ele as últimas homenagens a um dos atletas com maior projeção no cenário nacional. O sepultamento de João Carlos de Oliveira, um dos filhos mais ilustres da cidade foi acompanhado por uma multidão que se aglomerou nas ruas, praças e no cemitério municipal.
Na missa de corpo presente, muito anônimos se misturavam com autoridades políticas e militares, como o vice-governador e conterrâneo do atleta, Geraldo Alckmin. A tristeza do momento tinha sua tradução mais clara nas expressões do pai do campeão, Paulo de Oliveira. Esse negro forte, que no alto de seus 78 anos ainda guarda traços de seu apogeu como judoca, mantinha-se como o esteio emocional da família, amparando a netinha Thaís, de 11 anos, a suportar a perda do pai. A menina, ainda jovem para ter a compreensão do que vivia naquele instante, encostava a cabeça nos ombros do avô.
Mesmo calado, seu Paulo não conseguia disfarçar seu profundo sofrimento. Os olhos estavam distantes, provavelmente nas memórias herdadas na convivência com esse progídio do atletismo. Esse era o quarto filho que via ser enterrado, mas nenhum outro conseguiu o brilho do magricela João Carlos, que tentou ser goleiro do Corinthians de Pindamonhangaba e nutria um amor semelhante ao seu pelo clube do Parque São Jorge. Do lado de fora da igreja, a multidão aumentava. Todos queriam ver e dar o último adeus ao João do Pulo.
O Exército trouxe dois tanques de esteira blindados, M113, para levar a urna funerária e acompanhar o tenente e herói nacional nos Jogos Panamericanos, realizado no México, em 1975. A pequena distância entre a nave da igreja e o veículo de guerra que aguardava o caixão foi feita lentamente. Mais uma vez parecia que João Carlos de Oliveira tentava superar a própria morte, como fez nos 10 meses de luta no leito dos hospitais em 1981, após o acidente que lhe levou a perna direita. E agora, mais recente, a agonia de mais de um mês, até seu corpo ser superado pela falência multipla dos órgãos e ser tomado por uma infecção generalizada. O caixão pesou, mesmo carregado por oito militares
e custou a ser colocado sobre o blindado.
Os batedores da polícia militar ia abrindo caminho pelas ruas centrais da cidade. O comércio cerrou as portas e numa última homenagem a Igreja da Matriz badalou os sinos enquanto o cortejo seguia acompanhado pela multidão. A população de Pindamonhangaba tomou conta do trajeto, que cumpriu em 40 minutos cerca de dois quilômetros até o cemitério municipal, e aplaudiu o ídolo formando uma procissão apressada até a sepultura. A cova, num túmulo simples pertencente a família, estava cercada por mais de três mil pessoas que subiam nos túmulos para avistar e novamente homenagear o ex-recordista mundial, ex-deputado estadual e ex-militar.
Dentro do cemitério, o seu Paulo de Oliveira, recebeu das mãos de um oficial do Exército, a bandeira que cobriu o corpo e depois o tampo da urna. A família, mesmo atrapalhada pela multidão e pela imprensa, conseguiu se reunir ao lado da sepultura. Escutou o toque de silêncio do corneteiro do batalhão local e chorou. O pai de João Carlos, do recordista mundial João do Pulo, pode chorar. E as lágrimas lavaram sua face de homem sofrido, numa silenciosa despedida. Momento mais tarde teve que ser levado pelos filhos e netos ao hospital para ser medicado contra o mal-estar causado pela emoção. Mas atleta veterana, Odete Valentino Domingos, que cuidou do campeão no início da carreira, extravasou seus sentimentos quando a última coroa de flores foi depositada: "Obrigado por tudo de bom que você fez aqui".


