João Carlos verá jogos pela TV
Paulo Briguet
Enviado da Folha
O desemprego mora em muitos lugares na cidade de Foz do Iguaçu. Um deles é a Favela Morenitas, onde vive João Carlos de Oliveira, 26 anos, há quatro sem trabalho fixo.
O xará do zagueiro reserva da Seleção Brasileira gosta de futebol, é flamenguista desde a época áurea de Zico, mas não poderá ir aos jogos da Copa América disputados na vizinha Ciudad Del Este. Sobra vontade de ir, mas faltam condições de pagar os ingressos e o transporte.
O preço da Copa América é proibitivo para o bolso da imensa legião de desempregados locais. Mesmo com o Brasil jogando a poucos quilômetros da casa de João Carlos - uma oportunidade muito rara - o desempregado assistirá à competição pela TV, provavelmente na companhia do pai de 80 anos e da irmã, de 20.
Na vida de João Carlos de Oliveira, o drama do desemprego começou pelo pé. Ele trabalhava em uma olaria no Paraguai, perto de Santa Rita. Aos 9 anos de idade começara a aprender o ofício de fabricar tijolos. Eu sei tudo de cerâmica, aprendi como fazer tijolo amarelo, tijolo vermelho. Isso veio de família: meu pai era queimador de forno, e se aposentou em olaria. Em 1995, João Carlos sofreu uma queda quando operava a máquina de fazer tijolos. Um pé ficou mutilado.
João Carlos passou quatro meses no hospital, correu risco de vida por infecção - e quando saiu estava sem emprego. Internado, perdeu prazos na Justiça paraguaia. Me disseram que eu tinha que ir pessoalmente ao tribunal. Como, se eu não podia sair da cama? Ele diz que não recebeu indenização ou pensão. O ferimento ainda não sarou. De vez em quando eu vou ao médico, passo um medicamento, mas a ferida sempre volta. Desde o acidente de trabalho, João Carlos nunca mais teve chance de emprego. Garante ter procurado muito por serviço, mas sempre esbarrou no preconceito em relação ao problema físico. Atualmente, faz o que é possível para ajudar o sustento de casa: vende frutas aos conhecidos na favela.
Quando estava no Paraguai, João Carlos costumava ir ao Estádio Tres de Febrero, onde a Seleção Brasileira jogará a primeira fase da Copa América. Gostava de assistir a partidas do Cerro Porteño. Agora, só vai ao campo de futebol da favela, onde os amigos disputam peladas quase todos os dias. É o típico campo de futebol de periferia: traves tortas e piso de terra. João Carlos, com alguma dificuldade para se locomover, não joga. Mas acompanha os lances do amigo e vizinho Marcelo Vieira, 24 anos.
No futebol, Marcelo é corintiano e joga em qualquer posição. Na vida profissional, trabalhou na rouparia de um hotel de Foz até 1992. Ganhava o que hoje seriam R$ 200 por mês. Resolveu deixar o emprego fixo e fazer o que, segundo ele, 60% do pessoal aqui do bairro faz: passou a levar mercadorias - a popular muamba - do Paraguai para São Paulo duas vezes por semana. Ele lida exclusivamente com transporte de brinquedos para sustentar a mulher e a filha, de 3 anos. Ganha R$ 150,00 por viagem. É muito melhor do que eu estivesse trabalhando em hotel, diz.
Marcelo Vieira gostaria de ir à Copa América para ver a Seleção Brasileira. Mas, além do preço dos ingressos, muitos deles cobrados com ágio, uma razão fundamental o impede: trabalho. Se assistir às partidas do Brasil, deixará de ganhar dinheiro. Ele e outros colegas de muamba também temem que o acesso ao Paraguai seja fechado nos dias de jogo. Se isso acontecer, a Copa América vai dar prejuízo para minha família.
Debaixo da tosca trave, no terreno baldio que poderia ser chamado de Morenitas Futebol Clube, os amigos Marcelo e João Carlos discutem a Seleção Brasileira, tão perto e ao mesmo tempo tão distante deles.
João Carlos:
- O tempo do Ronaldo já passou. Acho que tem muita propaganda em torno dele. A gente só encontra camisa 9 da Seleção pra vender!
Marcelo:
- Não deu pra assistir ao treino do Brasil. Além ter que pagar ingresso, eu tinha compromisso no Paraguai.
João Carlos:
- O Wanderley Luxemburgo é meio cabeça-dura. Poderia escutar um pouco mais a voz do povo.
Marcelo:
- Eu queria o Romário nesse time.
Ao comentar as partidas na Favela Morenitas, Marcelo diz que há muitos pernas-de-pau. Mas, se fosse para fazer uma Seleção das redondezas, seriam convocados os atacantes Mineiro e Petrolini, dois vizinhos bons de bola. Um trabalha com muamba; o outro está desempregado.





