João Bigode: o dono da bola
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 07 de novembro de 2013
Thiago Mossini<br> Reportagem Local 
Toda pelada de futebol tem aquele cara que manda, o popular dono da bola. No time da Associação dos Funcionários Municipais de Londrina (AFML) não é diferente. O que muda lá é que o "dono do time" é o mesmo há 40 anos. Há quatro décadas, João Batista Ferreira de Pinho, o João Bigode, que não tem bigode há quase dois anos, desde que a filha pediu para tirar, é quem dá as cartas no time do clube. Mais do que isso: é quem garante a sobrevivência não só da equipe, mas também do cobiçado campo oficial da AFML.
Aos 64 anos e aposentado, Bigode tem um compromisso sagrado todo sábado à tarde desde o início da década de 70. E não há o que o convença a trocar o jogo de futebol por outro programa. "Aqui eu dou o sangue, dou a vida. É uma emoção muito grande. Largo de fazer outras coisas, viajar, pescar, até de ir a um casamento, para estar aqui", afirmou Bigode.
A equipe existe há mais de quatro décadas. Mas se organizou mesmo depois que ele assumiu o comando. "Antigamente, só jogava-se futebol de campo e o time da Prefeitura de Londrina era muito bom, mas não tinha um responsável. Até que eu comecei a trabalhar na Prefeitura e passei a tomar conta do time", relembrou.
Bigode tem fama de chato dentro de campo. Segundo os amigos, é aquele boleiro que fala muito o jogo inteiro. Mas é adorado por todos. "É uma pessoa sistemática, que gosta de tudo do jeito dele. Azedo às vezes, mas tem um coração maior que tudo", afirmou Cesar Bernini Ferro, 46 anos, que jogou 30 anos na equipe e hoje vê o filho representá-lo. O próprio João Bigode reconhece. "Sou muito chato na beira do campo, mas brigo para ganhar".
A maior briga dele, porém, é para manter ativo o campo de futebol da AFML, um dos melhores da cidade e que serviu de local de treinos para a seleção brasileira Sub-23 no Pré-Olímpico de 2000, realizado na cidade. Técnico da equipe na época, Vanderlei Luxemburgo não abria mão de treinar no local. Com a febre dos campos de society, o local quase virou três campos suíços. "Graças ao time ainda tem o campo oficial. Se não tivesse a equipe aqui, já havia acabado", contou Ferro. "Isso aqui é a vida dele", completou Amauri Custódio, 51 anos.
E o time é mesmo a vida do aposentado. Tanto que antes de casar, 38 anos atrás, já avisou a futura esposa. "Eu já jogava, então avisei que o domingo seria dela, mas o sábado era liberado, era o dia da bola".
Lateral-direito, João Bigode já não consegue apoiar como antes. Mas não muda de função. "A camisa 2 vai ser imortalizada. Ela é minha, os outros brigam pelas demais", brincou.
Em 2013, quando renovaram o uniforme, os amigos resolveram homenagear o grande líder. Bolaram um distintivo inspirado na época em que ele mantinha o bigode e apelidaram a equipe de "Amigos do Bigode". Justa homenagem para quem mantém viva a história do futebol londrinense.


