Jayme Feliphe Canhada Alves, 18 anos. Atacante cujas qualidades despertaram interesses de mais variadas vertentes do futebol. Interesses que levaram o jogador e o Londrina, clube que defende, à justiça. Interesses que estão destruindo a imagem do clube, com uma série de denúncias e irregularidades praticadas pela direção do Tubarão. Interesses que podem decretar o fim da carreira do garoto, que, apesar da pouca idade, já tem passagens por clubes grandes no currículo: Atlético-PR, Coritiba, Paraná e Internacional.

Por ordem de seu advogado, André Gorla, Jayme se silenciou. Há quase um mês ele não se manifesta publicamente sobre sua relação com o Londrina. Mas ele resolveu falar. Em entrevista exclusiva à FOLHA, o jogador rompeu o silêncio e desabafou: ''Eu não imaginava que existia tanta sujeira e tanta mentira no meio do futebol''.

Jayme acionou o clube na Justiça Trabalhista, no último dia 13 de julho, para tentar se desligar do Londrina. No processo, ele alega falta de pagamento de salários e encargos sociais. A disputa, entretanto, trouxe à tona outros acontecimentos ligados ao jogador. O presidente do Tubarão, Peter Silva, teria negociado 30% dos direitos federativos do atleta com o rapper Gabriel O Pensador e 20% com a empresa Talento Sports. As duas transações teriam ocorrido sem o consentimento do atacante.

Junto com seu advogado, com sua mãe Jandeyse Canhada, e seu tio e procurador, Janderson Marcelo Canhada, Jayme, que passará uns dias em Curitiba, recebeu a reportagem no apartamento em que mora com a família no Centro de Londrina e explicou seus motivos para procurar a justiça:

Folha: Por que você decidiu abrir essa batalha com o LEC?
Jayme: Eu não vou negar que estou muito triste com tudo o que esta acontecendo. Eu não imaginava que existia tanta sujeira e tanta mentira no meio do futebol. Eu estou escandalizado porque estão fazendo de tudo para destruir o meu nome e da minha família. Eles (diretoria do Londrina) disseram que não venderam meus direitos econômicos. Como não venderam? Fizeram como se eu fosse uma mercadoria como outra qualquer. Tanto o Edson Moretti (da Talento Sports), como o Gabriel Pensador, confirmaram a negociação para a imprensa. Se eles estão mentindo para a justiça, imagine o que são capazes de fazer com jogadores de futebol.

Folha: Como está sendo esses dias para você?
Jayme: É verdade que a ideia de abandonar o futebol já me veio a cabeça nos últimos dias, mas tenho me apegado muito em Deus e no carinho da família e dos amigos que me conhecem e sabem do meio caráter. Acredito na Justiça e tenho certeza que no final a verdade vai prevalecer.

Folha: Mas você se arrependeu de procurar a justiça?
Jayme: Como disse estou triste, mas acho que fiz a coisa certa. Entrar na justiça foi uma decisão muito difícil. Nasci na cidade e sou torcedor do Londrina desde criança. Reconheço que a minha passagem pelo Londrina foi importante, mas é preciso deixar claro que comecei a jogar no Londrina sem que o clube investisse um único real na minha aquisição. Passei numa peneirada, não foi nenhum olheiro que me descobriu, não fui formado no Londrina, até porque já tinha passado por outros grandes clubes (Alético-PR e Coritiba), portando merecia por parte dos dirigentes mais respeito e consideração.

Folha: O clube alega que os salários estão em dia.
Jayme: O Londrina ficou devendo sim. Consta na minha carteira de trabalho que fui registrado dia 1º de julho de 2008 e estranhamente, no meu contrato de trabalho, consta que minhas atividades começaram no dia 25 de julho, data em que eu estava jogando pelo Londrina em Belo Horizonte (na Taça BH). Portanto, seria impossível eu estar em Belo Horizonte e em Londrina no mesmo dia para assinar o contrato. Não recebi nenhum real nesse mês. Também em agosto não recebi nada referente a salário. Agora o Londrina alega através de um recibo, que eu não me lembro de ter assinado, que recebi R$ 400 pelos salários de julho e agosto de 2008, o que não é verdade e mesmo assim eles tão me devendo, pois R$ 400 não chega nem ao valor de um salário mínimo, portanto, não pode ser para pagar os dois meses de atraso. Quando voltei do Inter, recebi o salário do mês de abril em 20 de junho. Aí já daria os três meses de salários atrasados, mas resolvi acreditar na palavra do presidente de que isso não iria acontecer novamente e não entrei na justiça. No dia 4 de julho recebi R$ 500. Também não recebi o salário do mês de maio e junho, até porque o presidente combinou que iria manter o que eu recebia no Inter, que era R$ 1.000. O presidente alegou na justiça e na imprensa que fugi do clube para não receber. Vou provar que isso é mentira.

Folha: Você teve problemas semelhantes nos outros clubes por onde passou?
Jayme: Na verdade não quis ficar no Atlético. No Inter saí porque o presidente (Peter) me pediu para ajudar o Londrina na Série D e até me prometeu pagar o mesmo salário que recebia do Inter. Do Coritiba e do Paraná fui dispensado. Quando fui dispensado foi por deficiência técnica ou por problemas físicos, mas nunca por indisciplina ou desonestidade.

Folha: Você alega que há irregularidades no contrato.
Jayme: Temos um laudo com 27 páginas de um perito criminal que atesta que a assinatura que consta no contrato não é da minha mãe (o laudo não foi aceito pela juíza). Outro fato que descobrimos agora é que o atestado médico que consta no contrato parece que não foi assinado pelo médico, ele declarou que não reconhece a assinatura no contrato e que nunca me consultou (ver contrato ao lado). E o pior é que acho que o meu caso não é o único.

Folha: Mas você não assinou o contrato?
Jayme: Eu não lembro o que assinei. Pouco antes do embarque para a Taça Belo Horizonte (no ano passado) fui chamado em uma sala no VGD e me pediram para assinar um contrato. Eu falei para eles falarem com minha mãe ou o com o meu tio. O Ernesto (Silveira, supervisor do clube) disse que era um contrato provisório, para eu poder jogar o campeonato e ninguém tentar me roubar do Londrina, que eu poderia assinar tranquilo porque nem estava preenchido e que quando voltasse eles iriam conversar comigo para ver a questão da minha mãe, dos salários e o tempo de duração do contrato. Pedi de novo para chamarem minha mãe, foi muita pressão. O Ernesto me disse que não dava tempo e que se eu não assinasse não iria para o campeonato. Eu fiquei desesperado, tenho testemunhas que viram a minha situação. Não lembro direito o que assinei, eu só queria sair daquela sala e viajar para jogar. Hoje sinto vergonha de ter sido tão idiota. Me enganaram e eu cai na armadilha.

Folha: Você tem outro clube em vista já? A SM Sports seria esse clube?
Jayme: Esta é outra mentira que estão falando. O presidente disse na imprensa que tem empresário por trás e que eu queria prejudicar o Londrina. Eu recebi sondagens de alguns empresários e clubes do Brasil e do exterior, mas não recebi nenhuma proposta concreta. Como não estou atuando pelo Londrina e o próprio clube não tem interesse no meu futebol e sim em uma negociação, pretendo rapidamente conversar com estes clubes, e tentar viabilizar pelo menos um lugar para que eu possa treinar. O presidente do Londrina me ofereceu para todo mundo. Na verdade hoje sou um jogador que ninguém sabe a quem pertence e desvalorizado no mercado. A cada dia o Peter chegava no treino e me falava que eu estava vendido, que era para arrumar as malas e tal.

Folha: Mas você ainda pensa em jogar pelo Londrina?
Jayme: Tenho um carinho enorme pelo Londrina, quero jogar pelo clube que sempre torci, mas se Deus quiser vou fazer isso quando o Tubarão estiver sendo administrado por gente séria.

Folha: E o Gabriel O Pensador, você já conversou com ele?
Jayme: Não conversei. Ele tem conversado com meu tio, está chateado com a situação. Quis ajudar o Londrina e, assim como eu e o pessoal da Talento, é apenas mais uma vítima. Mas a maior vítima disso tudo é o Londrina Esporte Clube e sua fiel torcida que merece todo o meu respeito e tem o direito sim de exigir transparência de verdade, não isso que eles vêm divulgando.

A Folha procurou a direção do Londrina para comentar as acusações de Jayme. Por meio de sua assessoria de imprensa, o presidente Peter Silva afirmou que Jayme recebe o que está na carteira de trabalho dele. Sobre a suposta coação para assinar o contrato, o cartola afirmou desconhecer o assunto, pois na época, quem administrava o clube era o empresário Adir Leme da Silva. Reinaldo Furlan, diretor no Londrina na época e assessor direto do empresário, confirmou que só viajaria quem estivesse com o contrato em vigência, o que seria uma forma de resguardar os direitos do clube caso algum jogador se destacasse no torneio e despertasse o interesse de uma outra equipe. ''Explicamos isso ao Jayme e ele aceitou'', disse Furlan.

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