Japonês fica com o coração dividido
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quinta-feira, 22 de junho de 2006
Karla Matida<br>Reportagem Local 
O azul predominante entre os torcedores é mera coincidência somente porque é a cor oficial do uniforme dos funcionários da Fiação de Seda Bratac, onde a Folha foi assistir ao jogo de ontem. Não tem nada a ver com os jogadores japoneses. Quase todos por ali queriam mesmo ver muitos gols da seleção brasileira.
Com o coração dividido, só mesmo o diretor Chuichi Yakushijin, um dos poucos a aparecer com a camisa verde-e-amarela. Japonês radicado no Brasil há 33 anos, Yaku-san, como é conhecido, veste com orgulho a camisa 10 de Ronaldinho Gaúcho, mas não esconde o sonho de ver a seleção comandada por Zico passar para as oitavas-de-final.
''Torço para o Brasil, mas queria que o Japão se classificasse. Meu desejo é ver o Japão ganhando por 2 a 0, mas acho que na realidade vai ser 2 a 0 para o Brasil'', dizia Yaku-san antes do pontapé inicial. Com o começo difícil para a seleção brasileira, os colegas de trabalho que se reuniram na associação da firma para ver o jogo evitaram fazer brincadeiras com o diretor. O silêncio com o gol de Tamada só foi quebrado com Yaku-san, que não resistiu e levantou a camisa comemorando como era o costume dos jogadores. Mostrou o azul do uniforme para lembrar o tom da seleção dos samurais.
''Nem eu esperava esse primeiro gol'', confessou no intervalo, ainda inconformado com o empate no último minuto. Foi quando abriu o jogo e disparou: ''Ah, mas eu estou torcendo pro Japão. Está jogando bonito'', disse Yaku-san, que embarca para a terra natal na segunda-feira. ''Estou levando muitos uniformes do Brasil'', avisa o torcedor nipônico.
Há quatro anos, ele também estava do outro lado do mundo durante a Copa. ''Andei por todos os lugares com a camisa verde-e-amarela. Todo mundo queria trocar, valia mais que a do Kazu (grande ídolo do futebol japonês)'', explica. ''Durante os primeiros 15 anos no Brasil, torcia só para o Japão'', lembra Yaku-san, mesmo quando o adversário era a seleção brasileira. ''Agora torço mais para o Brasil'', garante.
Com o empate, começam as provocações. ''Mas só levou um'', rebate o nipônico, que no terceiro gol da seleção de Parreira não aguenta e tira a camisa verde-e-amarela, que vai para a reserva. Ele só volta a vesti-la no finalzinho do jogo. ''Vou chegar com ela no Japão'', promete.
Para Yaku-san, que foi atacante quando era estudante no Japão, o que falta para a seleção japonesa é ''arroz com feijão e carne''. ''Os jogadores são fracos e não aguentam até o final'', ensina. Quem sabe o conselho não chega aos ouvidos do técnico que ocupar o lugar do brasileiro Zico?


