Ouvidos atentos. Olhares fixados. Muita atenção e admiração. Afinal, não é todo dia que se ouve os ensinamentos de um campeão mundial de futebol, ainda mais se ele jogou na que é considerada por muitos a melhor seleção brasileira de todos os tempos. Com toda a admiração possível, que garotos do Laranja Mecânica, de Arapongas, participaram de um bate-papo com Jarzinho, o Furacão da Copa de 70.
Um dos maiores atacantes da história do futebol brasileiro, o tricampeão mundial divide a rotina entre os trabalhos como treinador e palestras motivacionais, principalmente para a garotada que está começando no futebol. Quer usar sua história para incentivar os futuros jogadores.
''É uma emoção muito grande estar aqui com ele, que vai servir de inspiração para todo mundo aqui'', afirmou o volante João Vítor, de 14 anos, que é natural de Colina-SP e está no Laranja há quase um ano.
''Acho muito importante para o futebol a forma como ele fala com os meninos. Infelizmente, hoje não temos mais esse tipo de pensamento (jogar ofensivamente)'', comentou um dos sócios do clube, o holandês Marco Plomp. Jairzinho esteve na região a convite da Metalúrgica Veipa, de Assaí.
Exemplo
O Furacão é um ótimo exemplo de como vencer no futebol com muita força de vontade aliada, obviamente, ao talento. Começou aos 13 anos, no juvenil do Botafogo, como ponta-direita. Aos 19, virou centroavante para ser titular em um time que tinha, entre outros, Zagallo e Garrincha. ''Eu contribuo falando a verdade para eles. Como comecei, como parei, falando da dificuldade que a maioria enfrenta, principalmente econômica'', observou.
De dificuldade Jairzinho entende bem. Perdeu o pai com apenas dois anos. ''Ficamos eu e minha mãe sozinhos no mundo e ela me deu toda a estrutura, principalmente para a vida social'', revelou.
Para o Furacão, esse é o grande problema dos jogadores de hoje. Ele entende que falta estrutura emocional, falta preparar o garoto para o sucesso que ele pode a vir fazer, impedindo que isso atrapalhe a carreira ou leve o garoto para um rumo que não é bom, como aconteceu com o goleiro Bruno, ex-Flamengo. ''Hoje a mídia está mais presente, mais atualizada e a visibilidade é muito maior. De um dia para o outro você está milionário. Então, temos a obrigação de prepará-los para a socieade e é nessa faixa de 11, 12 anos que isso é feito. Mostrar como deve proceder'', recomendou. ''Hoje, o jogador não precisa ir para a seleção para atingir uma estabilidade econômica e tem que ter maturidade''.
Aos 65 aos, Jairzinho esbanja vitalidade. A pelada de quinta-feira com outros ex-jogadores é sagrada, assim como o trabalho como treinador. O último foi no Esprof, de Cabo Frio, da Terceira Divisão do Carioca.
Ele, como legítimo representante da geração que representava o futebol arte, não aprova o jeito do futebol atual, muito menos a postura da seleção brasileira na Copa da África do Sul. ''Fica como lição para não acontecer de novo'', disse o ex-atacante, que marcou gol nos seis jogos que o Brasil fez na campanha do tricampeonato mundial, em 1970, no México, quando levou em definitivo a taça Jules Rimet. Ele disputou ainda as Copas de 66 e 74.
Jairzinho aprovou a proposta de renovação da seleção brasileira e pediu paciência e apoio ao técnico Mano Menezes. ''Nós sempre temos que dar tempo ao tempo. O Mano é capaz. Temos que depositar confiança e apoiar um pouco mais. O futebol é renovável e ele está correto. Sou adepto de jogar quem está melhor, não importa se o fulano joga há dez anos na seleção'', apontou.
Para ele, a seleção que Dunga levou para a Copa não tinha nenhum craque. ''Antes íamos com pelo menos quatro grandes craques. Dessa vez foi quem. Kaká e Robinho, para mim, não são'', criticou antes de defender o camisa dez santista, Paulo Henrique Ganso, que foi preterido por Dunga para o mundial e convocado por Mano. ''É o único jogador hoje que honra a camisa 10''.

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