São Paulo - Jadel Gregório hesita antes de fazer pose com ''cara de conteúdo'' e expressão pensativa para o fotógrafo. ''Já tenho fama de mau, vão achar que estou tramando alguma coisa'', receiou o triplista, sentado na arquibancada defronte à pista de atletismo do Centro Olímpico, na Vila Clementino, em São Paulo.
O recordista sul-americano do salto triplo, com a marca de 17,90m, de 2007, realmente não é uma unanimidade no meio do atletismo. Por diferentes motivos, nunca parou com treinador algum. Ele trabalhou com cinco ao longo da carreira - Osmar Araújo, Nélio do Prado Moura, Aristides Junqueira, Peter Stanley e Neílton Moura (irmão de Nélio) - antes de chegar ao londrinense Antônio Carlos Gomes, que é consultor de fisiologia do Corinthians, onde trabalhou com Ronaldo Fenômeno. Doutor em Treinamento Desportivo pela Universidade Nacional de Cultura Física da Rússia, Gomes prioriza o fortalecimento muscular de Jadel, que sofre com lesões sucessivas.
Em novembro do ano passado, o paranaense Jadel venceu os Jogos Abertos do Interior, em Santos, com a pífia marca de 16,46m. Ele ficou satisfeito com o resultado, levando em conta que a pista de corrida antes do tanque de areia era curta e ele não pôde dar as habituais 20 passadas. Em fevereiro deste ano, sentiu uma lesão na panturrilha da perna direita que atrasou a sua preparação.
Jadel tenta dar a entender que gostaria que Neílton tivesse mais tempo para ele. ''O Nei tem outros compromissos em Guarulhos. Mas me ajudou bastante. Foi o único que me estendeu as mãos na parte técnica'', afirmou o atleta, mostrando como seu filme está queimado entre os técnicos brasileiros.
Durante sua temporada em Guarulhos, cidade que defendeu nos Jogos Abertos, Jadel treinou na pista onde se preparava João Carlos de Oliveira, o João do Pulo. O recorde sul-americano pertenceu a João - bronze nos Jogos Olímpicos de Montreal e nos de Moscou -até 2007. A marca que caiu era 17,89m, recorde mundial por quase dez anos.
Jadel lamenta nunca ter conversado com o ídolo. Seu único contato com ele foi no velório de João do Pulo, em 1999. O triplista teve um fim triste, decorrente da cirrose hepática, e enfrentava sérios problemas financeiros. ''Eu nem fazia salto triplo ainda. Praticava salto em altura. Mas fui lá na Assembleia Legislativa prestar as minhas homenagens a um grande atleta brasileiro'', disse o brutamontes de 2,02m, com os olhos lacrimejando.
O homem que colecionou desafetos no atletismo não se considera uma figura intratável. E enfim deu sua versão sobre o fim da parceria com Nélio, técnico de dois campeões olímpicos do salto em distância (Maurren Maggi e o panamenho Irving Saladino). ''Não dá para treinar com uma pessoa que não faça pequenos ajustes que façam a diferença. Sempre fui seletivo''.
Neste ano, Jadel terá o Mundial Militar do Rio de Janeiro (julho), o Mundial de Daegu, na Coreia do Sul (agosto), e o Pan de Guadalajara (outubro). Mas sua maior meta, claro, é a Olimpíada de Londres. ''Vou cair longe'', disse, usando uma gíria dos saltadores que não deixa de ter duplo sentido. Na verdade, ele já caiu. Foi grande esperança no triplo e agora tenta recuperar o prestígio perdido.

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