Jacquet revela as armas para domingo: força e muita ambição
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quinta-feira, 09 de julho de 1998
Agência Estado 
Em meio à festa que tomou conta do vestiário principal do Estádio da França, logo após a vitória de anteontem sobre a Croácia, por 2 a 1, que levou a seleção anfitriã à decisão de domingo, contra o Brasil, pelo menos uma pessoa manteve a serenidade. Sei que pela frente ainda teremos um grande jogo, o sonho de todos os franceses, comentou o técnico Aimé Jacquet, reconhecendo o favoritismo do time de Zagallo, enquanto o presidente Jacques Chirac e o primeiro-ministro Lionel Jospin abraçavam os jogadores. O Brasil tem o melhor futebol do mundo e não temos nada a perder.
Aos 56 anos, esse francês de Sail-sous-Couzan está vivendo o melhor momento de sua carreira de uma maneira até certo ponto atípica. Desde a desclassificação da França na Eurocopa de 1996, disputada na Inglaterra, Jacquet não tem tido sossego com os críticos.
Um dia depois da euforia pela possibilidade de disputar um título mundial, fato até então inédito na história do futebol francês, Jacquet também demonstrou uma parcela de seu caráter. Mesmo com pouco carisma entre os franceses, salientou o otimismo da torcida e não deixou de citar os que sempre confiaram na equipe da França.
Além disso, não esqueceu de homenagear o amigo Fernand Sastre, co-presidente do Comitê Francês de Organização (CFO), morto há pouco menos de um mês, em plena disputa do torneio. Agora, espero que no domingo tenhamos um ambiente propício para uma grande jornada do futebol.
Agência Estado - Logo após a vitória sobre a Croácia, você disse que o Brasil era o favorito para conquistar o título mundial. Um dia depois, ainda continua pensando assim?
Aimé Jacquet - Contra a Croácia, éramos os favoritos, pois tínhamos tudo a perder e nada a ganhar. Agora, vamos enfrentar a grande equipe do Brasil, que tem o melhor futebol do mundo, e não temos nada a perder. Todos sabem que os brasileiros são os melhores, mas cada jogo é um jogo e estamos entusiasmados com essa possibilidade de aspirar a uma ascensão esportiva.
AE - Existe algum segredo para tentar superar os atuais campeões mundiais?
Jacquet - Precisamos jogar com força e muita ambição. Além disso, os 22 jogadores, todo nosso staff e a mídia devem unir-se muito nesses dias fabulosos que estamos vivendo. Ainda temos um grande jogo no domingo, o sonho de todos os franceses. Não jogaremos abertos, como fizemos diante da Croácia, mas temos um time excepcional, que poderá igualar as forças com o Brasil.
AE - Como será a preparação da equipe?
Jacquet - Extremamente profissional e minuciosa. Sonho com esse momento há muito tempo e agora estamos na decisão da Copa do Mundo. Posso dizer que, na minha cabeça, pensei em tudo o que vivi, nos momentos extraordinários com esse grupo que sempre trabalhou junto e que sabia que tinha recursos.
AE - Desde a vitória sobre o Paraguai, pelas oitavas-de-final, somente zagueiros marcaram (Blanc e Thuram) e a média de gols da equipe caiu bruscamente (de 3 por jogo para 1) em relação à primeira fase. Esse fato o preocupa?
Jacquet - Realmente fico inquieto quando não conseguimos marcar, mas contra a Croácia, por exemplo, aquele magnífico gol do Thuram (o de empate) nos deu oxigênio. Confesso que não tive muito tempo para pensar nisso, pois, logo em seguida ao gol de Suker, empatamos a partida. Esse problema, porém, me inquieta.
AE - Como foi a comemoração?
Jacquet - Os atletas não festejaram muito, mas não puderam dormir tão cedo, lá pelas duas da madrugada. Acho que a vitória foi uma grande recompensa para eles, principalmente pelo trabalho feito. Nós apenas ficamos um pouco perturbados com a expulsão de Blanc. Os jogadores estavam tristes, pois sabiam que nós perdemos um atleta de muita qualidade. Todos, porém, têm uma orientação a cumprir e sabem qual deve ser a posição em campo, o que nos garante a manutenção do esquema tático. O grupo se conhece muito bem e também se respeita.
AE - Quem pode ser o substituto de Blanc? Já começou a pensar nesse problema?
Jacquet - Blanc é um jogador exemplar, um líder, e sempre fez parte da base da equipe nos últimos quatro anos. Fiquei surpreso, o juiz teve uma reação injusta que o privou da decisão. Pelo que conheço dele, como jogador e como homem, foi difícil acreditar que ele tivesse agredido o adversário. Tenho certeza de que Lebouef vai substitui-lo com a mesma mentalidade. Ele vai se preparar com calma, serenidade e com o coração.
AE - Sob seu ponto de vista, qual foi o jogo mais difícil da trajetória da França até aqui?
Jacquet - Sem dúvida, contra a Croácia. Em algumas ocasiões da partida, o time começou a duvidar de sua própria capacidade, isso nunca tinha acontecido antes. Os jogadores ficaram inquietos e surpresos com os ataques alheios. Para vencer aquele jogo, precisamos da alma e do coração para sair das situações difíceis impostas pelo adversário. O jogo foi duro sob o aspecto técnico, tático e psicológico. Contra o Paraguai, pelas oitavas-de-final, também tivemos uma partida difícil, muito tática. Ali, mostramos nosso talento.
AE - Com quem você compartilha esse momento especial?
Jacquet - Gostaria de agradecer a Fernand Sastre, que nos deixou durante a Copa do Mundo, a todos que confiaram em nós e associar esse momento ao futebol francês, a todos jogadores, técnicos e dirigentes de nosso país. Também gostaria de agradecer aos jornalistas que fizeram seu trabalho correta e honestamente. Enfim, agradecer a toda França, que é uma grande parte deste Mundial.


