Investigado nos EUA e pressionado, Blatter renuncia ao comando da Fifa
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 02 de junho de 2015
Jamil Chade<br> Agência Estado 
Genebra - Joseph Blatter sabia que estava sendo investigado pelos Estados Unidos quando anunciou sua decisão de deixar a presidência da Fifa, ontem. O suíço decidiu convocar novas eleições apenas quatro dias depois de ter sido eleito para um quinto mandato. Sob forte pressão de cartolas, de políticos e patrocinadores, Blatter deixa o poder depois de 17 anos como presidente e 39 anos como funcionário da entidade máxima do futebol.
Mas foi acima de tudo o risco de uma prisão e um processo penal que mais pesaram na decisão. Se no fim de semana ele insistia que não renunciaria, tudo mudou quando ele foi informado de forma extraoficial que o Departamento de Justiça nos EUA estava tentando montar um caso contra ele, baseado nos depoimentos de dezenas de pessoas, incluindo os cartolas que foram presos.
A pressão aumentou quando foi revelado que a Justiça americana estava investigando Jérôme Valcke, seu braço direito. Documentos revelaram que Valcke sabia dos pagamentos de US$ 10 milhões para cartolas no Caribe e que estão sob investigação pelo FBI (veja box). Inicialmente, a Fifa insistiu que a carta vazada ontem não provava nada. Mas, horas depois em Zurique, a crise estava instalada.
Valcke já havia anunciado que não viajaria ao Canadá, um forte aliado dos EUA, para a abertura da Copa do Mundo Feminina que ocorre no fim de semana. Ele era o principal operador do torneio que, nos últimos anos, ganhou uma nova dimensão na entidade. Mas fontes em Zurique confirmam que existiam temores de que, estando no Canadá, a polícia local pudesse atender a qualquer momento um eventual pedido de extradição por parte dos EUA. Para Blatter, ter seu braço direito envolvido poderia significar um contágio imediato.
O Ministério Público da Suíça também indicou que havia aberto um novo processo penal por lavagem de dinheiro e gestão fraudulenta contra um alto funcionário da Fifa. Mas garantiu que, por enquanto, não se trata de Blatter.
Mas, aconselhado por seus advogados e cobrado por patrocinadores, Blatter decidiu renunciar num escândalo de corrupção que fez sete presos em Zurique e se aproximou de seu gabinete. Para completar, um tribunal de Nova Iorque deve publicar hoje a íntegra de depoimentos no processo da Fifa, o que poderia trazer à luz nomes como o de Blatter, citados por testemunhas e mesmo por condenados.
Em menos de 48 horas, tudo mudaria para o suíço. Ele já não tinha o apoio de dezenas de grandes federações nem dos jogadores. Mas foi o risco de um contágio generalizado que precipitou uma ação dos maiores patrocinadores da Fifa, que proliferaram reuniões desde ontem para alertar a Blatter de que não estavam dispostos a assumir esse risco.
A ameaça levantada por alguns seria de que uma eventual ação da polícia contra Blatter, sem uma transição sendo pensada, jogaria a entidade e o futebol em uma total desordem, com prejuízos milionários.
Uma eleição será convocada entre dezembro deste ano e março de 2016, tempo suficiente para que Blatter possa "limpar" qualquer rastro de corrupção dentro da entidade.


