Eles viajaram quase três mil quilômetros de ônibus. Estão há seis, sete meses sem ver a família, sem ver a namorada. A maioria não tem salário. Mas todos têm em comum o sonho que já nasce com os meninos brasileiros: vencer na vida como jogador de futebol.
Foi esse desejo que embalou 24 garotos maranhenses, que deixaram a terra natal para tentar a sorte em Rolândia (25 km a oeste de Londrina), nas categorias de base do Nacional Atlético Clube (NAC). ''Não é NAC mais, agora é MAC, Maranhão Atlético Clube'', brincou o meia Juninho, 19 anos, um dos migrantes da bola.
A invasão de atletas nascidos no Maranhão no Nacional é resultado de uma parceria firmada com o São Luís Futebol Clube, da capital maranhense e que vem dando resultado. O time fechou a primeira fase do Campeonato Paranaense Sub-20 na segunda colocação do grupo D, com 19 pontos - seis vitórias, um empate e três derrotas. ''É um trabalho humilde mas sério, que pode dar frutos. Está sendo muito produtivo'', analisou o presidente do NAC, José Danilson de Oliveira.
O responsável pela parceria é o ex-deputado estadual pelo extinto Arena e ex-presidente do Sampaio Corrêa, Arthur Carvalho, 55. Ele é o proprietário do São Luís e por acaso encontrou o Nacional. ''Vim trazer meu filho para fazer teste no PSTC, depois fui para Curitiba e um empresário me indicou o Danílson. Acabou dando certo'', lembrou.
Carvalho é também o técnico da equipe Sub-20 do NAC e tem grandes possibilidades de comandar o time profissional no Paranense do ano que vem. ''Está sendo bom para ambas as partes. Estou aproveitando para fazer um tratamento médico. Estou unindo o útil ao agradável'', afirmou.
Sem tradição nenhuma no esporte, o Maranhão não proporciona expectativa alguma aos meninos que tentam a sorte no futebol por lá. Ao invés de buscar a projeção no eixo Rio-São Paulo, o treinador preferiu entrar para o mercado sulista. ''O Sudeste já está esgotado. O negócio agora é vir para o Sul'', justificou. ''A diferença é que aqui a pegada é forte''.
Carvalho trouxe um preparador físico, que também é seu auxiliar, Francisco Júnior, 31. Ele é mais um maranhense em busca de oportunidades. ''Esta é uma oportunidade de colocar em prática o que aprendi na universidade. Futebol vive de mídia. Aqui, você tem mais acesso aos times grandes'', disse o preparador. ''Já encontramos um trabalho organizado e adicionamos os nossos maranhenses''.
Apesar de a estrutura do Nacional ser mínima, assim como boa parte dos clubes do interior, ambos compararam-na a das principais equipes do Maranhão. ''O Nacional se compara ao Moto Clube e ao Atlético, mas eles não investem como deveriam nas categorias de base'', comparou Francisco Júnior.
Carvalho não tem salário e paga os vencimentos de seu auxiliar. Tudo na esperança de decolar a parceria. ''Lá no Maranhão trabalhamos com mais de 100 garotos e quase 100% vêm da periferia. Consegui mudar a realidade desses jovens. São pessoas com condições de engressar em qualquer clube e se adaptarem bem'', destacou o dirigente.

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