Ingresso mais barato: R$ 2 mil. Você pagaria?
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sexta-feira, 28 de junho de 2002
Lúcio Flávio Moura<BR>Reportagem Local 
Camisa amarela surrada, referência pirata ao Escrete, bandeirinha sem mastro a tremular na quina do carrinho cheio de papelão, o dono mexe e remexe na montanha de lixo reciclável. Contra a miséria, limpa a cidade. A reportagem passa pela Avenida Duque de Caxias. É Jair Antunes, 28 anos, brasileiro que consegue levantar R$ 8,00 por dia puxando 100 quilos durante 40 quilômetros, ignorando tráfego pesado e preconceitos das 8 às 20 horas.
Nem sei com quem o Brasil vai jogar. Não tenho televisão, amigo. Ex-flanelinha e ex-lavador de carro, morador de uma edícula cedida por uma clínica na Rua Souza Naves, Antunes mostra um inocente otimismo. Vamos marcar uns cinco. E a Alemanha? Aí, já não sei.... Sobre o valor do ingresso do final, ele não pensa muito para responder. Pagar não pago. Se tivesse, também não pagaria. Não vale isso, diz, acostumado a desistir de sonhos muito mais realizáveis. Caso fosse pagar o ingresso com o seu suor, trabalharia exclusivamente para isso durante 250 dias ou três mil horas.
Mais abastado, o grupo de jovens que curte a tarde na Rua Piauí parece de bem com a vida e despreocupado com o megaevento do outro lado do mundo, mas acham o valor um exagero. Com R$ 2 mil faço uma superfesta e ainda sobra para comprar um telão, compara o vendedor Carlos Eduardo Sardi Filho, 20. Se estivesse no Japão e recebesse essa quantia gastava em roupas e presentes. Só iria, se ganhasse uns R$ 100 mil por mês, descarta a universitária Carolina Sandoval, 19.
Nas proximidades do Moringão, a opinião não é diferente.Nossa! R$ 2 mil para assistir um jogo? Não iria mesmo, diz Silvana Regina de Lima, 37, que há 13 anos ajuda o irmão a vender artigos verde-amarelos, desde bandanas e tiaras (R$ 3,00), até réplicas das camisas oficiais (R$ 30,00).
Rafael Freitas Silva, 19, aprovado em Biologia, já havia arrecadado R$ 20,00 para sua calourada. O alvo eram os motoristas presos pelo sinal vermelho. Nem com uma contribuição de R$ 1,00 de dois mil veículos, ele tomaria tal decisão.
Axel Aislan da Costa, 25, manobrista de um estacionamento, não titubearia, nem mesmo sabendo que 90 minutos de futebol podem valer meio ano de salários. Iria com certeza. O problema é que não tenho dinheiro, diz o rapaz, recém-contratado, depois de um ano e meio sofrendo com o desemprego.


