Indisciplinado, Baixinho é modelo de conduta
São Paulo - ''O Romário não faz parte do processo do futebol. Ele é o próprio processo'', diz o professor Antônio Carlos Simões, do Grupo de Estudos e Pesquisas em Psicossociologia do Esporte da USP. ''Vendo de fora, parece frágil, alguém que precisa de auto-afirmação. E a dificuldade de conviver em grupo pode vir da necessidade de contestar figuras de poder. E se as atitudes prejudicam outros, ele parece agir inconscientemente.''
O desgaste com a equipe aparece, segundo Simões, nos jogadores que ganham menos e treinam muito. ''Mas como o Romário faz gols, existe a tolerância de suas atitudes por parte dos dirigentes e mesmo pelos outros atletas, que aceitam muita coisa por questão de sobrevivência da família, dos filhos. Mesmo com a perda do foco de trabalho do grupo. É a instituição que aceita o modelo proposto pelo Romário. Se há equilíbrio imposto no time, é imposto pela instituição ou, em último caso, pelo Romário. É assim ou ele muda de grupo. Daí que ele é o próprio processo.''
Simões lembra ainda que o modelo adotado pelo atacante faz parte da cultura futebolística do Rio de Janeiro. Ao mesmo tempo, ele se torna modelo de conduta, tornando-se referência para vários segmentos sociais. ''Fora de campo, Deus acaba de dar uma enorme chance a Romário de se encontrar afetivamente de maneira muito profunda, com o nascimento da filha Ivy, com síndrome de Down. Ela vai exigir muito dele. É uma oportunidade de se encontrar com ele mesmo, de preencher um vazio. E ele sabe que dinheiro nenhum substitui a afetividade.''
Romário divide seu carinho por seis filhos. A Ivy, prestou homenagem em sua despedida da seleção brasileira, em 27 de abril, no Pacaembu, quando declarou via tevê, na camisa, o amor pela ''Princesinha''.
O neuropediatra Salomão Schwartzman, ele mesmo com autoridade para falar da síndrome de Down, diz que está sendo muito importante a coragem mostrada por Romário de falar a respeito do assunto. ''Não sei se ele está aquilatando as dificuldades. Talvez ele mesmo receba como uma lição de humildade, de que não pode tudo. Mas sua atitude está sendo maravilhosa.''
O técnico do São Paulo, Paulo Autuori, conhece Romário de criança, das categorias de base do Vasco, e acredita que Ivy possa ter modificado alguns valores do atacante. ''Ele não é o que parece a quem está distante. Não é o gelo que se imagina. Agora, parece que está se 'descortinando' mais, mostrando suas fragilidades.'' (D.M./AE)





