Impunidade justifica violência nos estádios
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sábado, 19 de agosto de 2006
Amanda Romanelli<br> Agência Estado 
São Paulo - Não é só o futebol pentacampeão do mundo que está representado nos estádios brasileiros. As mazelas que atingem o País também sobressaem no palco de nossos jogadores. É por isso que, na opinião de especialistas ouvidos pela Agência Estado, atos como os presenciados no Estádio Beira-Rio e no Maracanã (só para ficar nos exemplos mais recentes), continuam se repetindo, de maneira frequente e descentralizada. Corrupção, descaso com a infra-estrutura e, especialmente, a impunidade, são alguns dos fatores que fazem das arenas brasileiras uma terra de ninguém.
''O estádio é como uma mini-sociedade, um reflexo do País'', afirma Heloisa Reis, socióloga e professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). ''O estádio é aceito como um local onde a manifestação violenta é permitida e as autoridades não reagem a isso. Fica a sensação de impunidade.''
''O grande problema é a falta de punição. Xingar, no mínimo, passou a ser o padrão de comportamento. No estádio, pode tudo '', diz Marco Aurélio Klein, presidente da Comissão Paz no Esporte, criada pelo governo Federal.
O futebol paulista, que registrou 22 mortes relacionadas ao futebol nos últimos dez anos, tentou sanar a questão com a proibição de torcidas organizadas ou penas alternativas. Os resultados foram parciais. As brigas entre torcedores, dentro dos estádios, diminuíram. A polícia, agora, é o alvo das agressões como no caso entre os torcedores do Corinthians e a PM, em maio, após a eliminação do time da Libertadores pelo River Plate.
''A lei é muito branda'', afirma o promotor Nilberto Bulgueroni, do Juizado Especial Criminal (Jecrim) da Barra Funda, que intermediou acordo entre membros da TUP e da Mancha Alviverde, que brigaram antes do clássico Palmeiras e Santos, em março de 2005. O confronto resultou em 52 detidos; 11 assinaram um termo circunstanciado não seriam processados se comparecessem a uma delegacia em todos os jogos do clube até o fim do ano. Bulgueroni, porém, ainda não sabe dizer se o acordo foi cumprido. ''Estamos em fase de verificação.''
Por conta disso, todos defendem a criação de uma legislação específica para o futebol. Mas Klein alerta: um problema complexo só pode ser resolvido por ações da mesma grandeza. ''Enquanto não se implementar medidas ou ações coordenadas dos envolvidos clubes, governo essa questão não estará resolvida'', explica, dando o exemplo inglês, que combateu os hooligans. E teme soluções que considera ''simplistas'', como o fim das torcidas uniformizadas ou jogos realizados com a torcida de apenas um time. ''E quando brigam entre eles, como no caso Mancha x TUP?'', questionou.
Para Heloisa, soluções simples, como a numeração das cadeiras de um estádio, já ajudam. ''Assim você impede a superlotação e, com os torcedores sentados, é mais fácil controlá-los. Mas é preciso também parar de fazer de conta que se educa crianças e jovens nas escolas. É preciso dar estrutura familiar, educacional, social.''
O Jecrim, restrito aos crimes com penas máximas de dois anos, também entra no pacote de combate à violência, de acordo com a delegada Margareth Barreto, do Decradi (Delegacia de Crimes, Repressão e Análise dos Delitos de Intolerância) da Polícia Civil paulista, junto do cadastramento dos membros das torcidas. ''Temos de identificar quais torcedores dão problemas. E bani-los.''


