O ‘‘meninas não entram’’ das histórias em quadrinhos poderia ser o lema dos inúmeros grupos fechados, formados só por homens, naturalmente, que se reúnem uma ou duas vezes por semana para jogar futebol suíço. Na verdade, jogar é o mote, a desculpa, a justificativa. O real motivo é o congraçamento, ‘‘o colóquio gostoso, amistoso, que a gente tem’’, esclarece o advogado Abelardo Macedo, sócio-fundador de um desses grupos, o ‘‘Retiro dos Centuriões’’.
Quem estranhar o nome, deve se preparar para outros, ainda mais instigantes, como ‘‘Casa do Cici’’, ‘‘Bola Preta’’ ou ‘‘Galo da Madrugada’’, e para se surpreender com a idade desses esportistas cheios de ânimo e fôlego, que varia de pouco menos de 40 a mais de 70 anos. Cici ou Orency Garcia de Moraes, por exemplo, tem 72 anos e é um dos mais animados do grupo de 40 pessoas, reunidas semanalmente no espaço que leva seu nome. Os encontros, sempre às quintas-feiras, no fim da tarde, são considerados ‘‘sagrados’’. ‘‘Com chuva ou sem chuva’’, explica Cici, ‘‘não deixamos de vir’’. ‘‘Torcemos para que ninguém morra na quinta-feira’’, brinca Gilson Frazão, outro dos sócios, ‘‘para não ter de ir ao velório e deixar de comparecer ao jogo’’.
Além de esporte e do papo agradável, outro atrativo indispensável dessas reuniões é o ‘‘rango’’, como comenta Abelardo, dos ‘‘Centuriões’’. Aliás, vale esclarecer que o nome escolhido pelo grupo remonta aos tempos de Roma antiga e valoriza, na atualidade, a condição de ‘‘guerreiros na luta da vida’’ de seus integrantes. Talvez porque a luta seja mesmo renhida, esses guerreiros nunca dispensam uma boa alimentação. Às quartas, depois do futebol, a noite fica reservada para o churrasco ou para um jantar especial. Aos domingos, como ‘‘o atleta tem de estar bem alimentado’’, conforme defende Abelardo, tudo começa, antes do jogo, com um café da manhã, que pode chegar ao nível ‘‘5 estrelas’’, dependendo da ‘‘generosidade’’ do sócio responsável pelo ‘‘rango’’ daquele dia.
Na ‘‘Casa do Cici’’ também tem churrasco e ‘‘beliscos’’ diversos às quintas. ‘‘Depois de 60 minutos de futebol’’, conta Nadinho, o sócio encarregado dos disputados sorteios de escalação dos times, ‘‘são horas de comida e bebida’’. Será que assim mesmo dá para suar a camisa? Abelardo, dos ‘‘Centuriões’’ garante que sim. Cita, como exemplo, o sócio Agenor Carvalho, que não só joga bola, como faz muito gol, isso aos 73 anos de idade. De qualquer forma, o que se sabe, em se tratando de futebol suíço entre veteranos é que ‘‘o jogo nunca acaba zero a zero e o placar é sempre dilatado’’. (Ana Setti)

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