Ídolos do Londrina não se iludem e pensam no futuro
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sábado, 03 de abril de 1999
Nelson Cilo 
O goleiro Renato e o zagueiro-central Ivanildo, os donos da bola dos exigentes torcedores do Londrina, encontraram um jeito de driblar as incertezas do futebol: voltaram a estudar no início deste ano. Ambos já passaram dos 30 anos e não querem ficar sem rumo no dia em que as pernas não resistirem à rígida cartilha do profissionalismo. Os dois persistentes alunos do Cursinho Esquema/Mega (Ivanildo) e do Sigma Vestibulares (Renato) mergulharam nos livros para descobrir novos caminhos no futuro.
Acostumado a pegar forte nas divididas, sem ser desleal, o corajoso Ivanildo pagou caro pela excessiva ousadia na recente rodada da Série A-2 Paranaense em que o Londrina perdeu do Arapongas. No instante em que tentava desarmar o centroavante Flávio, o xerife caiu, levou as mãos no joelho e saiu de maca do Estádio dos Pássaros. Pensei que seria o fim... Se me arrebentassem os meniscos e os ligamentos, encerrariam minha carreira, supunha Ivanildo, que estaria recuperado na mesma semana.
Milton DóriaAplicaçãoRenato: pausa no gramado para abrir os livros e buscar nova profissãoIvanildo já defendeu grandes clubes, como o Vasco e o Coritiba. Juntou um bom dinheiro que permitiu a ele montar um razoável patrimônio em Cabo Frio (RJ). É lá que o craque tem residência própria e mantém um condomínio fechado. Recentemente, vendeu 27 lotes. Outras dezenas ainda estão disponíveis aos interessados. Não posso depender apenas do futebol. Sempre fui de batalhar. Um dia, trabalhei como servente de pedreiro, lembra ele, sem nenhum preconceito.
Os colegas de Ivanildo, como o técnico Val de Mello, que cursa o Colegial no Esquema/Mega, contam que o zagueiro é bastante estudioso. Sou de levar a sério tudo o que faço na vida. Na última prova bimestral, tirei nota 9,3 em Espanhol. Também sou fera em Matemática e Física, orgulha-se Ivanildo, que daria um conselho aos meninos da escolinha do Londrina. Eles devem se preparar fora do futebol. Não podem imaginar que todos ficarão milionários e que terão a mesma sorte de um Romário ou de um Ronaldinho. A fama ilude, alerta Ivanildo, 31, que pretende entrar na Faculdade de Educação Física.
Renato - Mais do que nunca, o goleiro Renato, 33, que virou garoto-propaganda do Sigma Vestibulares, curte a rotina diária como estudante. O embalo mental não é o mesmo de antes, mas a gente renova a cabeça e sempre aprende coisas interessantes, constata Renato, que gostaria de ingressar no Curso de Ciência do Esporte - uma área voltada ao marketing e ao gerenciamento. Esse universo me fascina, explica o goleiro.
Em 82, Renato estava no Londrina, mas, ao se transferir para o Guarani de Campinas, precisou interromper os estudos. Não daria pra conciliar, mas, se eu pudesse, não teria parado. Valeria ir pro sacrifício. Agora, encaro a escola numa boa. Não enfrento tanto corre-corre como antigamente, reconhece Renato, que no ano passado abriu uma escolinha de futebol em Curitiba. A esposa Dulciléia é professora de Educação Física e administra o Centro de Treinamento na capital.
A exemplo de Ivanildo, Renato atuou em alguns dos maiores time do Brasil, como o Guarani e o Coritiba. Em 96, nos tempos de Coritiba, sofreu uma séria contusão no braço e quase abandonou a carreira. Fiquei um ano longe dos campos. De repente, bateu aquela insegurança..., recorda Renato, que, ao conceder uma palestra aos juvenis do Londrina, deu ênfase aos riscos da profissão. Defendo a tese que os clubes deveriam obrigar os garotos da escolinha a estudar. Um dia, a idade estoura e o menino vê que o futebol não é aquilo que se imaginava. Os sonhos podem te enganar, acredita Renato.


