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Esporte

m de leitura Atualizado em 13/03/2022, 12:09

Ídolo do hóquei em Washington sofre pressão por manter apoio a Putin

PUBLICAÇÃO
domingo, 13 de março de 2022

RAFAEL BALAGO
AUTOR autor do artigo

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WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) - Ao andar pelas ruas de Washington, é comum ver camisetas com o nome de Alex Ovechkin. Ele é o capitão e principal ídolo do time de hóquei da cidade, o Washington Capitals.

Ovi, como é chamado, joga pela equipe desde 2005. Ele foi importante na conquista do primeiro título da franquia na NHL, em 2018, e bateu vários recordes ao longo da carreira, como o de ser o maior artilheiro da liga no século 21. Com isso, tornou-se um dos nomes mais conhecidos do esporte disputado sobre o gelo.

O ídolo dos Capitals é filho de atletas soviéticos. Sua mãe, Tatiana Ovechkina, ganhou duas medalhas olímpicas no basquete. Seu pai, Mikhail, jogava futebol. Ele nasceu em 1985 e cresceu na periferia de Moscou, no período do colapso da União Soviética e da formação da Rússia atual. Seu irmão Serguei, que o estimulou a jogar hóquei, morreu quando ele tinha dez anos.

Ovi começou a carreira de atleta no Dínamo de Moscou, onde jogou por quatro anos. Em 2005, foi contratado pelos Capitals. Em Washington, marcou 52 gols em sua primeira temporada e foi o terceiro maior artilheiro do torneio. Começou ali a ser admirado pela torcida, que celebrou seus vários feitos desde então.

Aos 36 anos, Ovi começou a temporada atual no caminho para se tornar o terceiro maior goleador da história da NHL. Ele atingiu a meta ao marcar seu gol número 766 na noite de terça (8), mas a conquista veio em um dos momentos mais complicados de sua carreira.

O jogador tem sido pressionado pelos torcedores nas últimas partidas, tanto nos jogos em casa como nos duelos fora, por não ter condenado a invasão da Rússia russa na Ucrânia e por ter proximidade com o presidente russo Vladimir Putin. Na última terça-feira (8), o público em Calgary, no Canadá, vaiou quando ele entrou na quadra e na maioria das vezes em que o sistema de som anunciou seu nome.

O Calgary Flames tem feito homenagens à Ucrânia em suas partidas em casa, como tocar o hino do país. O russo Nikita Zadorov, que joga no time, publicou um pedido para parar a guerra.

As queixas também acompanham Ovi nas partidas em Washington. No último dia 3, torcedores mostravam uma bandeira da Ucrânia e um cartaz que ligava Putin a Hitler. Apesar disso, houve gritos de "O-vi" quando o jogador marcou um gol.

O ex-goleiro Dominik Hasek, uma das lendas do hóquei, criticou Ovi publicamente e o chamou de "mentiroso e covarde". "A NHL deve suspender os contratos de todos os jogadores russos. Se a NHL não fizer isso, terá responsabilidade indireta pelos mortos na Ucrânia", defendeu Hasek.

Os cerca de 50 outros jogadores russos que atuam na NHL também vêm sofrendo pressões. "Meus clientes têm recebido ameaças de morte", disse Daniel Milstein, que agencia mais de 20 atletas russos, ao jornal The Washington Post. "Muitos deles estão em posição difícil porque não podem falar publicamente. Alguns estão preocupados com o bem-estar de familiares que ainda estão no país", afirmou.

Ovi costuma passar as férias na Rússia, onde vivem sua mulher, seus dois filhos e seus pais. Frente às ameaças, os Capitals reforçaram a segurança do jogador. Deram também apoio público a ele e a seus demais atletas russos. "Sabemos que eles estão sendo colocados em uma situação difícil", disse o clube, em uma nota oficial.

A guerra também tem afetado os negócios. A fornecedora de material esportivo CCM disse que não usará mais jogadores russos em propagandas. E a seguradora MassMutual retirou do ar um comercial com Ovi.

Para evitar polêmicas, atletas da Rússia têm evitado falar sobre a guerra. No início do mês, o ídolo dos Capitals abriu exceção e deu uma entrevista coletiva. Fez um pedido por paz, mas evitou criticar Putin. "É uma situação dura. Tenho muitos amigos na Rússia e na Ucrânia. É duro ver a guerra. Espero que logo isso acabe e haja paz no mundo todo. Por favor, chega de guerra", pediu.

Perguntado se continuava a apoiar o líder russo, disse que sim. "Ele é meu presidente. Mas eu não estou na política, sou um atleta. Espero que tudo termine logo. É uma situação dura para os dois lados", afirmou.

Ovi mantém no Instagram uma foto de perfil em que aparece ao lado de Putin. Em 2017, o jogador lançou uma iniciativa chamada Putin Team, para reunir atletas, artistas e outros famosos que apoiavam a reeleição do líder russo. "Nunca escondi minha relação com nosso presidente. Sempre o apoiei abertamente", disse na época.

"Alex, tenho sido seu maior fã nos últimos 20 anos, mas isso é vergonhoso. Uma coisa é você não querer dizer nada sobre isso por medo do que pode acontecer com sua família, mas ter a foto de um criminoso de guerra em seu perfil é vergonhoso. Eu vou organizar boicotes a todos os jogos até você escolher a humanidade em vez de $$$", comentou o usuário Willie Nelson, em uma das várias fotos de Putin no perfil do atleta.

Além de Putin, Ovi tem fotos com Neymar e Ronaldinho Gaúcho em seu perfil do Instagram.

Após o começo da guerra, a NHL suspendeu suas relações comerciais com a Rússia, o que fará com que os jogos deixem de ser transmitidos no país. A entidade disse estar preocupada com os jogadores russos. "Eles atuam em favor de seus clubes da NHL, não da Rússia. Entendemos que eles e suas famílias estejam em uma posição extremamente difícil", afirmou a entidade, em comunicado.

No âmbito internacional, a IIHFF (Federação Internacional de Hóquei no Gelo) cancelou jogos na Rússia e proibiu o país de disputar torneios internacionais.

Se a crise atual for superada, Ovi ainda poderá tentar ser o maior artilheiro da história da NHL. O recorde atual, de 894 gols, pertence a Wayne Gretzky, que se aposentou em 1999. Faltam 128 para igualá-lo, número que Ovi costuma marcar na soma de uma temporada e meia. Resta ver se as questões externas poderão impedir isso ou se acabarão esquecidas com o passar do tempo.