Húngaro quer revolucionar o futebol com tática infalível
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sábado, 24 de julho de 2004
Claudio Yuge<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Futebol no Brasil é religião, fato incontestável. É só olhar para o lado e tem alguém ''orando'' por algum de seus santos nas centenas de agremiações nacionais. Faz parte do processo torcer, gritar, sofrer, pular, cantar e, é lógico, opinar. Cada espectador sentado na arquibancada tem lá suas divagações de técnico.
Entretanto, nenhum é como o senhor Ferenc Polena, um húngaro naturalizado brasileiro. Ele sonha em comandar 11 jogadores com um esquema que afirma ser infalível.
Polena nasceu em Udvard, na Hungria, em 1931, e sempre gostou de futebol. Quando fez 18 anos, começou a praticar a modalidade na escola técnica Csepel, da Terceira Divisão. Um ano depois foi para a Segunda Divisão do exército. Na sequência, o então jovem húngaro teria o encontro com aquele que foi um dos maiores jogadores da história: o ''xará'' Ferenk Puskas, goleador ágil, dotado de um poderoso e certeiro arremate de canhota. ''Jogava na ponta direita de em um time da Primeira Divisão (O'Buda Sport Club). O Puskas jogava do outro lado, no ataque. Era um jogador fantástico, empolgante''.
O Honved (time do exército, que tem como tradução algo como ''soldado''), onde jogava Puskas, era admirado por Polena, que também tinha o atacante húngaro como sua maior referência no futebol. Polena diz que na época não chegavam muitas notícias da equipe brasileira. ''Mas todos ouviam no rádio sobre Didi (armador que se destacou desde 54 e esteve nas conquistas dos títulos mundiais de 1958 e 1962), que era muito conhecido na Hungria. Ele era o 'diabo negro', que a gente tremia só de ouvir o nome'', conta Polena, que mesmo aos 72 anos mantém um sotaque carregado.
Sua vinda para o Brasil aconteceu em 1956, durante a revolução para a libertação da Hungria do domínio soviético. Nesse período, Polena fugiu para a Iugoslávia e conseguiu sua passagem para solo tupiniquim quando foi aprovado em testes pela imigração.
Ao chegar em Curitiba, fez testes no Atlético e no Britânia, em 1958. ''A imigração encaminhava os testes, fui aprovado mas eles pagavam pouco'', afirma. Assim, Polena deixou um pouco de lado o esporte para ganhar a vida em uma fábrica de fósforos.
Apesar de se afastar do futebol, Polena nunca deixou o sonho de lado e treinou o juvenil do Vasco do Pilarzinho, em 1978, e foi vice-campeão, em 1983, ao comandar o aspirante do Santa Cândida, time do bairro onde mora até hoje. As boas experiências no esporte, porém, foram deixadas em segundo plano para que ele aplicasse seu tempo na administração de pequenas empresas.
Já nos anos 90, Polena sofreu um golpe: investiu tudo o que havia ganho com empresas de refrigeração em um novo empreendimento, que acabou não dando certo quando o Plano Real decretou a paridade entre a moeda nacional e o dólar. Desiludido, decidiu erguer a cabeça novamente para tentar realizar o sonho que o acompanha desde os tempos dos gramados surrados da Hungria: o de ser um técnico de um time de futebol.
Chegou a levar o currículo para o trio de ferro da Capital Atlético, Coritiba e Paraná Clube , assim como para outras praças, como Ponta Grossa, e até equipes amadoras. Mas não obteve resposta. ''Não sei o que acontece. É porque sou estrangeiro e então eles olham desconfiados. Mas eu tem uma técnica infalível.''
Uma de suas táticas invencíveis, de acordo com seus próprios relatos, é a abolição dos laterais e o ressurgimento dos pontas-de-lança, função que pouquíssimos jogadores costumam cumprir atualmente, como o brasileiro Denílson ou o finlandês Jari Litmanen. ''Os laterais não estão preparados para passar a bola. Assim, os defensores não precisam ir ao ataque e não cansam. O meio-de-campo e os atacantes voltam e atacam conforme a bola vai da defesa para o ataque.''
Questionado sobre sua tática, utilizada normalmente nos anos 50, ele afirma que não são necessários atletas de talento para jogar em seu time e que nem mesmo condições ruins de clima ou do gramado seriam empecilhos. ''Não precisa de talento. É só treinar. Domina e chuta. O ponta recebe e cruza ou faz o gol, simples.''
Polena quer comprovar que seus métodos não são antiquados e podem se adequar a qualquer equipe. ''É um método vistoso, que diverte e não cansa nem machuca os jogadores. Hoje em dia nenhum técnico vê os defeitos. Mas eu vê'', garante. Para quem quiser tirar a prova, ele faz questão de deixar seu telefone para contato: (41) 356-8857.


