São Paulo - ''Disssspppaaaarrrraaaa''. É este grito, carregado de sotaque e semelhante aos proferidos em um treinamento militar, que o húngaro Ákos Angyal repetiu diversas vezes por dia desde que a seleção brasileira de canoagem começou a usar a cidade de São Bernardo do Campo (SP) como concentração permanente, em abril de 2005. Na água, os atletas se esforçam para baixar os tempos nas raias improvisadas na represa Billings.
Ao lado do brasileiro Pedro Sena, Ákos tem a missão de fazer com que a modalidade seja um dos destaques nacionais nos Jogos Pan-americanos, que serão realizados no Rio de Janeiro. O estrangeiro treina os atletas do caiaque, que já tem relativa tradição no país, com 11 medalhas em Pan. Sena, por sua vez, tenta levar a canoa pela primeira vez ao pódio.
A vinda do treinador ao Brasil deve-se ao fato de ele ter nascido em um dos países onde a canoagem tem mais representatividade, a Hungria, onde as competições do esporte costumam lotar as arquibancadas. Na história das Olimpíadas, os húngaros já conquistaram 17 medalhas de ouro, 26 de prata e 24 de bronze, sendo a nação que mais acumula pódios na canoagem.
''É um esporte muito popular na Hungria, quase como o futebol aqui'', explica Ákos, com um português bastante razoável para quem não tem nem dois anos de Brasil. Ele é apontado como o responsável pela união dos atletas da modalidade, graças ao seu jeito amigo e disciplinador ao mesmo tempo.
''Primeiro foi um treinador nacional (Carlos Bezerra) e depois veio o polonês (Zdzislaw Szubski). O Bezerra era um treinador mais da linha amigo do atleta. Já o Szubski veio com uma linha de general, uma coisa mais rígida. E o Ákos é a mistura: um cara muito compreensivo, que sabe lidar muito bem com os problemas dos atletas sem deixar de tirar o seu máximo dentro da água'', relata o experiente Sebastian Cuattrin, que no Rio vai disputar seu quinto Pan.
Sena diz que a chegada de Ákos foi benéfica até mesmo para a canoa. ''Desde abril de 2005 formou-se uma família e isso fez com que todo mundo se unisse. Antes, o caiaque era de um lado, a canoa de outro e isso não agregava valores. Unimos as duas forças do esporte e isso fez com que os dois lados crescessem'', analisa.
A canoagem brasileira vai participar dos Jogos Pan-americanos com nove atletas: Sebastián Cuattrin (K1 1000m K4 1000m), Guto Campos (K2 500m e K4 1000m), Edson Silva (K4 1000m), Roberto Maheler (K4 1000m), Jonathan Silva (K2 1000m), Givago Bitencourt Ribeiro (K2 1000m), Nivalter Santos (C1 500m e 1000m), Vilson da Conceição (C2 500m e 1000m) e Vladimir Moreno (C2 500m e 1000m).
De olho em uma boa participação na disputa, os atletas treinaram cerca de cinco horas diárias no ABC paulista. Depois embarcaram para a Europa, onde mediram forças em duas etapas da Copa do Mundo. No começo de junho começaram a concentração definitiva no Rio de Janeiro.

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