HONRAS
AO CAMPEÃO
PARIS - Na mesma lágrima, o rosto da vitória e da derrota. Com uma diferença: a gota da vitória seca mais rápido - e não dói. Ambas, porém, nascem da mesma emoção. Final é transfiguração e a seleção da França transfigurou-se. Ao entrar no campo, parecia transpirar a confiança de uma nação inteira.
Não é fácil reduzir uma partida de decisão a seus aspectos mais objetivos. A técnica individual, a harmonia coletiva, a organização tática. Ainda assim, fica evidente que a seleção da França se impôs à brasileira, em todos os níveis. Taticamente, Aimée Jaquet neutralizou as individualidades.
E como, graças às individualidades, é que vinha se salvando o Brasil, acabou prevalecendo a equipe mais eficiente. Esperava-se uma noite de superação dos brasileiros. Não se viu uma equipe inflamada, não se viu uma equipe coordenada. Não se viu no Brasil nem mesmo a pálida imagem de toda a Copa.
Venceu a França. Poucas vezes tenho visto em decisão uma equipe tão segura de si como esse belo mosaico multirracial que acaba de mostrar ao mundo a face fulgurante de uma nova França.
Parabéns, campeões do mundo.
No jardim da Copa
Antes que a História, com letra maiúscula, comece a mentir sobre a última Copa do século, apresso-me a dar meu testemunho do que foi esse magistral encontro de suor, de cantos, de risos e de lágrimas. São breves souvenirs que seguirão comigo um caminho já de tantos mundiais.
O semblante de César Sampaio, quando cantava o Hino Nacional no primeiro jogo da Copa: prelúdio de um gol iluminado! A seleção da Nigéria, flor de abacate: a infância do futebol, jogando o futebol da própria infância! O Champs Elysées, a avenida sem fim que anda pra cima e pra baixo! O gol de Bergkamp contra a Argentina, agora, guardado a sete chaves no museu do Louvre!
As mãos providenciais de Taffarel, eleitas, uma vez mais, emblema de Deus! Os árbitros do mundial: flores do mal. A retórica sibilante de Zagallo, sobrevivendo ao vento mistral que varreu da Copa, colérico, meia-dúzia de generais-da-banda. O jogo Brasil-Holanda: uma partida de xadrez em que as pedras eram movidas com os pés. Menos, é lógico, a torre do rei Taffarel.
A seleção do Japão: futebol de história em quadrinhos. Os irmãos Laudrup, vikings de alma leve que fundaram uma dinastia de futebol-arte. A seleção da Arábia Saudita: verde-lírio, mal florindo num deserto de homens e idéias. A seleção da Argentina: adios pampa mia, me voy, me voy a tierras distantes...
O coração múltiplo da seleção francesa bleu-blanc-rouge-brun: arco-íris de fraternidade! O dominó do ‘‘gendarme’’ Blazevic, correndo o mundo, com uma bola nos pés, para mostrar que a Croácia existe. A equipe nacional da Itália, piano, , devagar e nunca: flor sem aroma! A equipe nacional da Iugoslávia: aroma sem flor!
A seleção da Alemanha: ‘‘cactus erectus’’ entre as flores mais sedutoras no jardim do Olimpo! A seleção da Holanda, tulipa de tímida fragrância, flor altiva, jogando futebol de turbante! O pensador de Rodin, depois de muito pensar: ‘‘o futebol é uma caixinha de surpresas’’! O vinho, que faz tão bem à mulher, principalmente, tomado pelo homem!
O jogo Irã-Estados Unidos: é brincando que os homens se entendem! O gol contra do gigante Zubizarreta: a bola, no fundo do coração, cristalizada como uma gota de lágrima! A sofreguidão dos coreanos, sangria desatada, querendo chegar depressa, sem saber direito onde nem pra que! A cena de Baggio, quando um beque italiano deu um chute pro alto, in-extremis: a bola subindo, entre as nuvens e o craque, consternado, como que dizendo, em solilóquio: ‘‘Descansa lá no céu, eternamente/e eu viva cá na terra sempre triste!’
O inglês Owen, o derradeiro cometa do século XX, visto a olho nu por bilhões de criaturas do planeta futebol! Jamaica, flor de felicidade, mais cheirosa na vida que no campo: a alegria, diz o Eclesiastes, prolonga a vida! A torcida brasileira, ardente, fraternal: merece o Prêmio Nobel da Paz! A bola do jogo, com o mesmo ar jovial de todas as Copas: os homens passam, a bola, não. Tu me remoças, amiga!
Os gramados da Copa: obra de arte da jardinagem francesa!
Enfim, a transfiguração da vida na doce fantasia de uma bola.
PELO BEM DO FUTEBOL
Pelas pontes do rio Sena; pela ‘‘tenebrosa beleza’’ dos versos de Baudelaire; pela baguete, pão mítico que Deus amassou; pelas arcadas da Place des Vosges; pelas violetas que tingem de pudor e modéstia o Jardim de Luxemburgo; pelo ‘‘homme au bonnet de coton’’, de Cézanne; pelos queijos da pequenina Camembert; pela cintilação das estrelas numa flute de champagne; pelos 90 anos de Lucien Laurent, o francês que marcou o primeiro gol na Copa do Mundo, no ano de 1930, em Montevidéu; pela imagem de Marianne que simboliza a República: Liberdade, Igualdade, Fraternidade; pela prosa de Flaubert que exaltava a palavra sobre todas as coisas; pela taça Jules Rimet, criada na França para eternizar o futebol brasileiro; pelo sim e pelo não, fica decretado que, para o bem do futebol, a França será a sede única da Copa do Mundo, para todo o sempre.
Colaboram Paulo César Vasconcellos e Andréa Escobar.
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