Na academia de taekwondo, Wanderley Rodrigues dos Santos e Henrique Camargo mostram grande habilidade e força ao praticar os golpes da arte marcial. Se alguém acabasse de conhecê-los, no tatame, teria a certeza de que são ótimos lutadores, mas dificilmente daria um palpite correto sobre seus ofícios. O primeiro é vigário paroquial da Catedral de Londrina e o outro, reverendo da Oitava Igreja Presbiteriana do Brasil na cidade.
Apesar das opções religiosas diferentes, ambos compartilham a paixão pelo taekwondo, que, segundo eles, é totalmente compatível com suas respectivas atividades e traz muito benefícios à saúde e ao desempenho do trabalho no dia a dia. ''Na questão da disciplina que o pastor deve ter é muito importante, mas também tem a parte de concentração, socialização e alívio do estresse'', afirma Camargo. ''Não importa o credo, somos imagem e semelhança de Deus e se Ele habita em nós é muito importante cuidar da saúde do corpo e da mente'', ressalta o padre.
A arte marcial, de acordo com o pároco, ajuda, inclusive, na hora de aconselhar e ouvir os fiéis da igreja. ''Consigo atender muito melhor as pessoas, o aconselhamento se torna mais fácil'', afirma o sacerdote que voltou a praticar o esporte no ano passado, depois de 18 anos de inatividade.
Entre os fiéis, o padre admite que o fato de ser taekwondista chama atenção de alguns, mas de maneira positiva. ''Acham diferente, mas não ruim. Algumas pessoas até me procuram interessadas em fazer taekwondo''.
Por ser pastor, Henrique Camargo também afirma que acaba, indiretamente, incentivando alguns fiéis a conhecer melhor a arte marcial. E de forma direta ele tem um projeto social voltado a ensinar taekwondo a crianças carentes. ''A espiritualidade sem a função social não faz sentido'', destaca o taekwondista faixa preta.
Para o padre, a prática do taekwondo já foi importante não apenas pelos motivos que ele citou, mas também na preservação da sua integridade. Ele conta que em seu segundo ano de seminarista, em 1994, foi vítima de uma tentativa de assalto, por dois homens, que mal podiam imaginar estar diante de um faixa preta, que pratica o esporte desde os 14 anos de idade. ''Toda pessoa tem o direito de se defender'', afirma Santos.
Academia abençoada
Dono da academia onde Camargo e Santos praticam o taekwondo, Jair Queiroz admite que, de início, se surpreendeu com a presença deles no tatame. ''Foi muito gratificante a presença deles aqui, só traz bençãos mesmo''. E, para o mestre da arte marcial, isso reforça o fato de que, praticamente, qualquer pessoa pode lutar o taekwondo e encontrar no mesmo uma ótima fonte de saúde e de qualidade de vida. ''É importante que as pessoas vejam não só como um esporte, mas uma atividade benéfica à saúde'', reforça.
Até o ano passado, Queiroz mal podia imaginar que com a chegada do padre na academia, dois amigos de infância e colegas de tatame voltavam a se reencontrar depois de muitos anos e após seguirem caminhos parecidos, mas em diferentes religiões. ''Já fomos para competições pela mesma equipe, até nos enfrentamos no tatame'', lembra Camargo, que luta desde os 15 anos. ''E nos reencontramos aqui. Ele não sabia que eu havia me tornado padre e eu não imaginava que ele tinha virado pastor'', finaliza Santos.

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