"Free Solo", vencedor de 2019, mostra desafio do escalador Alex Honnold de subir paredão de 975 metros de altura sem proteção
"Free Solo", vencedor de 2019, mostra desafio do escalador Alex Honnold de subir paredão de 975 metros de altura sem proteção | Foto: National Geographic/Divulgação



Nos últimos três anos, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, responsável pelo Oscar, premiou documentários relacionados ao esporte. Em 2017, o contemplado foi "O.J.: Made in America", série da ESPN que narrou a história do ex-jogador de futebol americano O.J. Simpson, acusado de assassinar sua ex-mulher Nicole Brown Simpson e Ronald Goldman. No ano seguinte, o premiado foi "Icarus", que detalhou o escândalo russo de doping com a ajuda do chefe do laboratório antidoping nacional Grigory Rodchenkov. A escolha de melhor documentário de 2019 recaiu sobre "Free Solo", que relata a aventura do escalador solo Alex Honnold para subir o paredão El Capitan, de 975 metros de altura, sem cordas ou equipamento de proteção.

Segundo o crítico de cinema Carlos Eduardo Lourenço Jorge, mais do que a parte esportiva, o que a Academia privilegia é a repercussão dos fatos retratados. "Tirando o 'Free Solo', que é um filme legal e com ritmo, o que existe em primeiro lugar é a figura desses esportistas ligados a um caso de escândalo", aponta. "O O.J., todos sabem quem é. O outro filme ('Icarus') aborda a questão do doping, ou seja, não é o retrato de nenhum anjo da guarda. Foram atletas pegos em situação de delito", argumenta.

Jorge cita as dramatizações "Oscar Pistorius: Blade Runner Killer", sobre o paratleta sul-africano condenado por homicídio, e "Eu, Tonya", sobre a patinadora americana Tonya Harding, banida do esporte acusada de envolvimento na agressão a uma rival, como outros exemplos de filmes em que o esporte é apenas pano de fundo de grandes escândalos.

Para o crítico, existem graus variados de fanatismo e de adeptos. "Acho que o interesse surge e cresce à medida que existe uma massa torcedora, se é que podemos chamar de massa, mas de torcedores que têm um grau de admiração pelos seus ídolos. Não podemos esquecer a história do culto ao corpo, que aumentou o interesse das pessoas pela prática esportiva e isso leva à descoberta de valores em várias áreas", aponta Jorge.

O crítico ressalta que esses documentários dificilmente chegam ao grande público no Brasil. "Eles vão para o streaming (distribuição digital), mas não ganham o circuito comercial e não são exibidos em salas para o público brasileiro. Os documentários esportivos fazem parte do entretenimento específico da área de esportes e têm seu lugar na história como registro, mas são relativamente datados. É uma coisa da história para a qual recorrer e lembrar", justifica. "Acho que há um número expressivo de documentários que precisam ser descobertos. Mas como e através de quem? Eu entro na Netflix e não encontro. Vejo que lá tem muita ficção."

Jorge conta que chegou a discutir com o diretor sérvio Emir Kusturica durante uma entrevista durante o Festival de Veneza, ao falar sobre os feitos de Pelé. Kusturica havia feito um documentário sobre Maradona. "A iconografia, ou seja, o registro de imagens do Pelé era muito pobre. O gol fantasma do Maradona com a mão todo mundo viu. Kusturica sabia a vida do Maradona de cor e salteado, mas disse a ele que era uma pena que não existem registros em detalhes das jogadas de Pelé. Depois dessa discussão, enviei um DVD do filme 'Pelé Eterno' para ele, mas ele nunca me respondeu", lembra.

Brasil também tem suas referências

O cineasta Rodrigo Grota relata que a primeira vez que se sentiu próximo do formato do documentário esportivo foi em 2014, quando dirigiu o filme "O Nadador". "Foi um documentário sobre o Tetsuo Okamoto, que foi o primeiro medalhista olímpico da natação brasileira. Ele conquistou a medalha de bronze em Helsinque, em 1952. Quando a gente fez esse documentário, o que percebi estudando a trajetória dele é que você vê muitos elementos dramáticos que são preciosos na construção da narrativa de um personagem. Ela está muito próxima do herói das tragédias gregas, que passa por muitas superações e desafios. A gente vê que hoje a mídia está focada nos atletas como se fossem semideuses, porque tem essa questão da jornada do herói impressa na trajetória desses atletas", destaca.

Grota, que retratou pilotos no longa de ficção "Leste-Oeste", considera que os esportes que rendem mais bons roteiros são os individuais, como o boxe ou o tênis. "Os americanos fazem documentários sobre basquete, futebol americano porque têm poder de produção grande. O documentário sobre o Tetsuo Okamoto fez parte de um projeto chamado Memórias do Esporte Olímpico Brasileiro. Ao longo de cinco anos, foram produzidos mais de cem documentários sobre várias modalidades e disponibilizaram isso de forma gratuita para escolas", relata. Ele conta que tenta fazer um documentário sobre a lutadora de taekwondo Natália Falavigna. "A gente conversou com ela em 2014, na época que estava fazendo o documentário com o Tetsuo. A gente ainda quer fazer. Ao se fazer um documentário desses, é sempre interessante ver os bastidores do esporte", afirma.

Dos documentários sobre futebol, ele cita duas referências. "O primeiro que me impressionou foi 'Garrincha, Alegria do Povo', do Joaquim Pedro de Andrade. A fotografia é do Mário Carneiro, que foi um dos grandes diretores de fotografia do Brasil. O Garrincha tinha acabado de ser bicampeão mundial no Chile", descreve. "O segundo é um média metragem de 30 minutos de Maurice Capovilla, chamado 'Subterrâneos do Futebol', que retrata os bastidores do futebol e para o qual foram filmados treinos do Santos na época do Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe", destaca.

O cineasta ressalta ainda as produções do Canal 100, do cineasta Carlos Niemeyer, que levava em película às grandes telas as imagens de jogos de futebol. "Alguns cinemas voltaram a exibir imagens do Canal 100 nos anos 90 e alguns canais de TV, como a Cultura, reproduziram algumas dessas imagens. Em termos estéticos, era muito bom. Criavam imagens com esplendor, com qualidade muita acima do que a gente vê na TV. A maneira como eles retratavam a emoção do público no estádio era fenomenal. Era uma espécie de exaltação do fascínio que o futebol exerce", elogia.

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