História de um
corte anunciado
Romário foi personagem da história de um corte anunciado. O destino do atacante do Flamengo e da Seleção Brasileira foi selado ontem, em Ozoir-la-FerriSre, no dia em que a comissão técnica tropeçou nas contradições e criou uma aparente incógnita sobre o futuro do jogador. Zico e Zagallo estabeleceram o dia 2 como data-limite para a definição da inscrição de Romário na Copa do Mundo. O médico Lídio Toledo, em sentido oposto, afirmou que o artilheiro disputaria o Mundial. Todos sabiam que o campeão do mundo em 94 se despedia da Copa, mas não confirmavam.
Zico e Zagallo queriam Romário em boas condições na Copa e sabiam que o jogador, sem treinar com bola desde o dia 6 de maio não teria condições de participar da competição. A contradição foi criada a partir de uma ordem da direção da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Para evitar que o problema de Romário desestabilizasse o grupo, o que já vinha acontecendo em virtude de notícias divulgadas pela imprensa brasileira, a entidade tentou criar um discurso uniforme. Ou seja: Romário estava garantido na Copa. Ontem, porém, foi cortado. Somente uma melhora surpreendente e inesperada poderia mudar o rumo dos fatos.
Prevaleceram, desde cedo, o pensamento e o discurso de Zico, que se fortalece no cargo de coordenador-técnico. O jogador deixou a concentração da Seleção Brasileira logo após o anúncio da dispensa, almoçou em Paris e depois deu rápida entrevista na saída do Hotel Renaissance, a caminho do Aeroporto Charles de Gaulle.
Romário disse que conhece bem o seu organismo e que daria para jogar dia 10, contra a Escócia. ‘‘Mas isso não quer dizer que a comissão técnica da seleção esteja errada.’’ Ele admitiu que estava realmente sentindo dores. ‘‘A comissão técnica não confiou na minha recuperação, mas paciência.’’ O jogador estava certo de que disputaria a Copa até as 22 horas de segunda-feira. ‘‘Depois das 10 horas fui informado e senti a maior dor da minha vida.’’
Para o craque, embora tenha esperado ‘‘até onde pôde’’, a comissão técnica não acreditou que ele pudesse se recuperar a tempo. ‘‘A comissão técnica foi cavalheira, mas eu não pensava que seria cortado.’’ Romário promete dar a resposta no Flamengo. Dia 16, ele garante que estará em campo para jogar pelo seu clube. Antes de se despedir dos jornalistas, disse, em tom melancólico: ‘‘Agora, nunca mais vou ter Copa do Mundo, e isso me deixou intranquilo.’’ E acrescentou: ‘‘Não fui para a Olimpíada e me preparei para a minha última Copa; gostaria de voltar para o Brasil com o título para encerrar a minha carreira, por isso volto arrasado.’’
O jogador chegou ao Aeroporto Charles de Gaulle às 22h20 de ontem. Ele embarcou por uma sala especial, no portão 14 do terminal 1, onde foi feito o seu check-in pelo funcionário da CBF Tadeu Lanes. Segundo Lanes, em nenhum momento o atacante revelou mágoa ou revolta; só tristeza. Ele estava na lista de espera da primeira classe do vôo 727 da Varig (Amsterdã-Paris-São Paulo e Rio).
A Varig só conseguiu confirmar o vôo do jogador às 18h30. Antes de embarcar, o artilheiro disse a Tadeu Lanes que estava indo embora porque seria muito difícil para ele assistir à Copa ‘‘fora das quatro linhas’’. Entrou no avião sem saber que teria um parceiro ilustre na primeira classe: o tenista Gustavo Kuerten, o Guga.

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