Havelange enaltece números da Copa
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terça-feira, 30 de junho de 1998
Agência Estado 
A Copa do Mundo que o quase aposentado presidente da Fifa, João Havelange, viu até agora não tem problemas de ingressos, nem de hooligans e os erros dos árbitros até que foram benéficos. O que seria do futebol sem a polêmica? perguntou o dirigente numa entrevista que concedeu ontem apenas para jornalistas brasileiros. Em mais de uma hora de conversa, Havelange procurou acentuar o sucesso indiscutível do futebol. Orgulhou-se em deixar a Fifa com milionária situação financeira e patrimônio de milhões de dólares.
Disse não ter concluído apenas dois projetos, quase um sonho político. Queria ver as duas Coréias, do Sul e do Norte, unidas pela futebol e ainda não perdeu a esperança de fazer um jogo da paz. Não tive tempo ainda, mas não perdi a esperança de fazer um jogo de futebol em Nova York, onde está a sede das Nações Unidas, entre a Palestina e Israel, disse Havelange. Esta negociação já está iniciada e ainda acredito que possa se realizar.
Com fala fluente e longas respostas, João Havelange só não quis entrar em dois assuntos: a Lei Pelé e sobre as denúncias de fraude na última eleição da Fifa. Sobre o primeiro caso, desviou o assunto dizendo que estava à disposição para discutir e responder assuntos relativos ao futebol mundial e não sobre o Brasil. A eleição, em que Joseph Blatter assumiu seu lugar, disse ter transcorrido com transparência e organização, desconhecendo denúncias publicadas em jornais franceses, em que países africanos teriam recebido dinheiro para votar em Blatter.
Outros casos, como hooligans, ingressos falsos ou poucas entradas, João Havelange disse que não compete à Fifa. São assuntos do país organizador. Sua parte foi feita com a distribuição de entradas para as delegações. Ninguém pode dizer que recebeu ingressos falsos da Fifa, disse. Se compraram de agências, não temos nada com isso.
Para João Havelange, a Copa de 2006 não iria nem para a Alemanha nem para a Inglaterra. Seu sonho seria vê-la na África do Sul, onde disse ter encontrado todas as condições para organizar um evento desse nível. Para 2010, o Brasil deveria ter a sede e Havelange contou que os brasileiros já têm inclusive o apoio da Argentina.
A Inglaterra também está investindo muito na tentativa de organizar a Copa de 2006. Havelange referiu-se a Tony Blair, primeiro ministro britânico, como o político do século, e ele lhe contou planos de renovar todo o estádio de Wembley. O dirigente aproveitou o assunto e repetiu sua idéia de implodir o Maracanã. Gostaria de ver outro construído no seu lugar e até sugeriu uma companhia italiana para a empreitada em troca da exploração do novo estádio.
O assunto preferido de Havelange na entrevista coletiva de ontem foi mesmo o sucesso da Copa da França. Gostou de falar em números. Disse que a média de gols por partida está próxima de três. Revelou que o retorno financeiro é altíssimo. Cada time ganha US$ 1 milhão por partida, com todas as despesas pagas. Disse que quando assumiu a Fifa, há 24 anos, o Mundial com 16 equipes girava US$ 78 milhões e, agora, com 32 seleções está em torno de US$ 500 milhões. Por isso, gostou da idéia de se criar um fundo na Copa para o projeto de profissionalização de todos os árbitros.
Para Havelange, nem todos os países têm condições de ter árbitros profissionais, mas com a ajuda da Fifa este programa poderia seguir em frente. Explicou que o fundo viria de receita da própria Copa e poderia ser aplicado prioritariamente na África, parte da Ásia e Caribe - regiões onde o desenvolvimento do esporte ainda não atingiu o estágio da Europa ou América do Sul.
Havelange chamou de egoísta o técnico da seleção alemã, Berti Vogts, que queria mais equipes européias na Copa e menos africanas e asiáticas. Havelange não quis fazer a seleção deste Mundial, mas destacou a participação do goleiro paraguaio Chilavert.


