O piloto Maurício Gugelmin ainda persegue o título de campeão da Fórmula Indy. Ele esteve perto de atingir seu objetivo em 97, quando terminou na quarta colocação do campeonato. Após essa boa fase, veio a ruim. Para 2001, esse catarinense que adotou Curitiba aos três meses de idade, espera fazer as pazes com as vitórias e ser reconhecido pelo talento. Gugelmin conversou com a Folha no seu ‘‘QG’’, no elegante bairro do Batel, em Curitiba, e falou dos motivos que o trouxeram à capital paranaense, de Ayrton Senna, F-Indy, dos seus pensamentos nas pistas, das cicatrizes, da experiência em Hollywood, da possibilidade de ser ‘‘cartola’’ e do seu time preferido.
Folha – Você está voltando para Curitiba?
Gugelmin – Continuo morando na Flórida. Agora em Coral Gables, mais ao sul de Miami, numa ilhazinha, com marina e tudo. Pouco vizinho, ponte, porteiro para ninguém entrar.
Folha – Fale um pouco da sua vida nos EUA?
Gugelmin – Eu tenho três filhos. Gêmeos de seis anos e Gabriel de quatro meses, todos americanos. Ou melhor, americanos-brasileiros. Nasceram lá. Eu tenho dupla cidanania, brasileira e italiana. Nos EUA sou residente, tenho green card, mas não sou cidadão americano. Nasci em Joinville, Santa Catarina, fiquei três meses lá e vim para Curitiba. Vivi em Curitiba até os 18 anos e estou há 19 no exterior.
Folha – Mas a base de operações continua sendo Curitiba?
Gugelmin – Sim. Meu escritório aqui cuida da parte promocional, contratos pessoais, assessoria de imprensa e dos meus negócios particulares, relacionados com fazenda e griffe de roupas. Tenho um escritório menor em São Paulo.
Folha – Como foram os primeiros passos no automobilismo?
Gugelmin – Comecei a correr com seis anos, no Kart, em São José dos Pinhais. No kartismo percorri o Brasil e dali fui para a Fórmula Fiat e para a Inglaterra, em 82, para correr na Fórmula 1600, 2000, 3, 3000. Passei cinco anos na F-1 e estou na Indy há sete. Na F-1 corri por pequenas equipes: March e Jordan.
Folha – A sua passagem na F-1 não foi boa?
Gugelmin – Se você olhar a história da categoria, todos os pilotos que tiveram bons desempenhos, pelo menos a partir dos anos 80, correram por grandes equipes, como a Williams, Ferrari e McLaren. A Bennetton apareceu alguns anos e sumiu. O que aconteceu comigo foi que não acertei com nenhuma dessas equipes. Eu nunca fui pé-frio. Não tive sorte de abrir a porta na hora certa. Dou outros exemplos: o Zonta, que dirige um monte, passou dois anos na F-1 e no próximo ano vai trabalhar apenas como piloto de testes. O automobilismo é um esporte que além de talento e apoio o piloto precisa ter a sorte de aparecer na hora certa.
Folha – Mas como o Senna saiu de uma escuderia pequena?
Gugelmin – Ele descolou uma vaga na Lotus, passou dois anos, difíceis, mas apareceu como promessa. Abriu uma vaga na McLaren e ele foi. Na equipe levantou três campeonatos.
Folha – Você conheceu bem ele?
Gugelmin – Vivemos juntos durante cinco anos. Conhecia muito bem ele.
Folha – Se desenha que a vida de piloto é um mar de rosas: fãs, dinheiro e muita moleza. Você passou privações no início da carreira?
Gugelmin – Passei momentos terríveis. No início não tinha dinheiro para me alimentar. Comer carne? Só quando vencia uma corrida. Quando você se estabiliza as coisas se tornam mais fáceis. Antes de entrar na F-Indy fiquei seis meses fora do circo. Isso foi em 93. Fiz três provas na Indy no final do ano e gostei. A partir de 94 eu passei a participar regularmente do campeonato. Sempre tinha aquela de circuito oval, como é que é porque em F-1 é só o misto e circuito de rua. Experimentei e estou lá até agora.
Folha – Você teve um auge no final de 97?
Gugelmin – Tive um desempenho excelente, o carro era bom e terminei em quarto no campeonato. Como na F-1 é importante ter um equipamento bem ajustado.
Folha – Como de um ano para ouro os carros mudam da água para o vinho?
Gugelmin – As escuderias não ficam paradas. Você pode estar bem em um ano aí outra marca desenvolve um carro melhor e você fica para trás. O automobilismo é um esporte dinâmico. Não é só acertar o carro e passar dez anos vencendo corridas. Hoje em dia você não precisa ser um expert em mecânica para ser piloto, a eletrônica resolve tudo. O trabalho do piloto é interpretar os dados.
Folha – Você nunca teve medo de terminar como o Ayrton Senna?
Gugelmin – Medo de morrer... quase todo mundo tem, não por estar dirigindo. A partir do momento que você nasce, você assume riscos, não existe ninguém mais para lhe protejer.
Folha – E as batidas?
Gugelmin – Tive algumas inesquecíveis. Capotei, virei, rodei e fiz tudo que tinha direito. As piores foram nos ovais. Dói pra caramba. Meu maior susto foi em Nazareth, em 98, quando dei uma pancada de costas na curva 3. O acidente ocorreu porque a marcha não entrou quando freiou. O carro virou e deu no muro. Destruiu da asa traseira até o motor. A roda ainda bateu na minha cabeça. Senti queimando tudo. Tive um coágulo nas minhas costas que demorou três meses para absorver o sangue.
Folha – Durante um acidente o que o piloto pensa?
Gugelmin – Quando você sai você acha ótimo. Você só se preocupa quando entra no acidente porque nunca sabe o que vai lhe acontecer.
Folha – É mais perigoso dirigir em Curitiba ou nas pistas?
Gugelmin – Em Curitiba!!! Nem todos que estão em volta de você são profissionais. Você está exposto a mais obstáculos. A começar pela rua, imprópria para correr. Nas pistas têm muro de proteção, têm local específico para resistir a impactos. Os médicos são treinados e sabem aonde são os pontos críticos. Aqui não, conforme o horário, você pode dar em um poste, cair no rio e nem o acham. O trânsito em Curitiba está bem melhor.
Folha – Como você explica tanto brazuca na F-Indy?
Gugelmin – O americano é muito bom em circuito oval, mas no misto deixa muito a desejar. Tudo começou quando alguém experimentou um brasileiro e daí um outro e as equipes direcionaram para esse lado. Neste ano tínhamos nove pilotos. Agora, na próxima temporada podem ser 11. O Bruno Junqueira e o Max Wilson devem ser os novatos.
Folha – Como é o relacionamento entre os brasileiros?
Gugelmin – A disputa profissional existe. Isso é normal. A gente se dá muito bem. Eu sou presidente da Associação de Pilotos e conversamos muito para melhorar nosso ambiente de trabalho. Quando cada um está no seu carro a história é outra.
Folha – É verdade que você pode virar cartola da F-Indy?
Gugelmin – Aconteceram convites. Esse ano fiz um trabalho muito bom na parte de segurança e melhorei a comunicação entre os organizadores e os pilotos. Neste ano aconteceram comentários: ‘‘no futuro se você quiser trabalhar conosco...’’. Mas está tão distante. Primeiro porque eles não têm dinheiro para me pagar. Segundo, eu nem quero pensar porque ainda estou dedicado a correr. Minha idéia é melhorar a categoria para os sucessores.
Folha – O que o público mais gosta numa corrida?
Gugelmin – Porrada!!! O acidente é impressionante. Não que ele goste de ver o piloto machucado. O fã chega ao bar e conversa com o amigo: ‘‘viu aquela batida, não sei como ele saiu inteiro’’.
Folha – Seus pais, sua mulher, seus filhos, não tem medo de vê-lo voando nas pistas?
Gugelmin – Não, eles acostumaram. Minha mãe perdi cedo, meu pai e meu irmão acompanham minhas corridas. Minha mulher, Estela, gosta, está acostumada com os riscos e sabe que se ficar em casa incômodo mais do que correndo.
Folha – Agora você está com um pé em Hollywood?
Gugelmin – Não. Meu capacete, meu carro e meu macacão participaram do filme Driving, do Silvester Stallone. Eu faço a parte de quando o carro está andando. Quando tiro o capacete o Stallone está vestido de Maurício. É um filme que a Cart fez um acordo com ele e fui escolhido. Li o script. É aquela mesma história de sempre. Ele é o herói que ajuda a todos, não vence a corrida, mas ajuda alguém chegar a vitória. Vai ser espetacular: porradas, carros voando em cima de lago, capotando, coisas que a gente não faz. Mas para 99% do público vai ser sensacional.
Folha – Você está pensando em pendurar o macacão?
Gugelmin – Ainda não.
Folha – Você é vermelho e preto ou verde e branco?
Gugelmin – Você vai me criar um problema. A maioria dos meus familiares são atleticanos. Eu sempre fui coxa-branca. Mas atualmente a diferença entre as duas equipes é brutal.

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