Guga passa por sueco em jogo nervoso
PUBLICAÇÃO
domingo, 11 de junho de 2000
Agência Estado De Paris, França e Florianópolis 
A vitória de Gustavo Kuerten sobre Magnus Norman na final de Roland Garros, ontem, em Paris, bem que poderia entrar num livro de recordes. Guga precisou de 11 match-points bolas do jogo para definir sua conquista na decisão de um torneio de Grand Slam. Foram 3h44min de um jogo nervoso, com altos e baixos e o já conhecido talento e espírito de luta do brasileiro para definir a vitória. Sem contar ainda uma bola duvidosa que poderia ter definido a partida bem mais cedo.
Desde o início da partida, Guga soube aproveitar bem as oportunidades. Norman parecia nervoso na sua primeira final de Grand Slam e logo no primeiro game teve seu serviço quebrado. O brasileiro chegou a abrir uma vantagem de 4 a 0 e esteve próximo de uma vitória ainda mais arrasadora até definir 6 a 2.
No set seguinte, a história quase se repetiu. Guga saiu quebrando o serviço de Norman e manteve na frente do placar até ganhar a série por 6 a 3, com três quebras de serviço teve uma vez seu serviço quebrado.
A vantagem do jogo estava na regularidade de Guga. Só para se ter uma idéia, no primeiro set, Norman cometeu 21 erros não forçados, enquanto o brasileiro tinha feito apenas 12. Esta diferença manteve-se até o final da partida, com o sueco totalizando 79 e o brasileiro 69. No terceiro set, Norman, vibrando nas jogadas, conseguiu mudar a situação e chegou a assustar. Venceu a série por 6 a 2, com duas quebras de serviço a seu favor.
Guga precisou de muito controle emocional e também controle nos golpes para voltar a dominar o adversário no quarto set, depois inclusive de ter começado esta série cedendo seu serviço. Parecia que o sueco iria impor-se, mas o brasileiro voltou a empatar e no 5 a 4, com saque de Norman, surgiram os três primeiros match points.
Num deles, a bola parecia ter saído, Guga foi até a rede para cumprimentar o adversário, mas o juiz de cadeira não achou a mesma coisa e o jogo teve de continuar por mais 44 minutos, até que no tiebreaker deste memorável quarto set, Kuerten venceu por 8 a 6, no 11º match point.
A estatística mostrou que no número de aces, os dois tenistas estiveram iguais, com nove, com oito duplas faltas de Norman e três de Guga. Um detalhe mostra o equilíbrio. Nos pontos ganhos, o brasileiro somou 159 e o sueco 157.
Mãe vibra Parabéns para nós todos; eu nem acredito que sou mãe dele; não poderia ter uma felicidade maior do que ter um filho tão lutador, tão batalhador. A vibração de Alice Kuerten, que assistiu ao jogo de sua casa, no Bairro Córrego Grande, se estendeu por todos os cantos de Florianópolis. A comemoração na cidade da segunda vitória de Gustavo Kuerten em Roland Garros não teve a explosão popular de uma Copa do Mundo, mas agitou o ensolarado domingo. Pouco depois da vitória, carros com bandeiras do Avaí, time para o qual o tenista torce, chegaram com buzinas abertas à avenida Beira-Mar Norte, principal via de contorno da cidade, que também foi palco de uma carreata organizada pelo Banco do Brasil.
Na Beira-mar os moradores de classe média queimaram fogos por mais de dez minutos. O mesmo aconteceu no outro oposto, a favela do Morro da Caixa, uma das maiores da cidade, na zona continental. No colégio Simão José Res, no Bairro Trindade, os mais de 600 universitários que realizavam o provão esqueceram os narizinhos de palhaço que usavam em protesto contra o teste e fizeram uma algazarra para comemorar a vitória do tenista. Eles souberam do resultado, porque muitos conseguiram entrar nas salas das provas com radinhos de pilha.
Também foi o Banco do Brasil, um dos patrocinadores de Gustavo Kuerten, que montou duas grandes lonas com telões. A primeira reuniu 100 pessoas no centro da cidade, a maioria crianças como Ivan Francisco Bond, de 11 anos, que foi sozinho assistir ao jogo do seu ídolo. A outra foi montada junto às quadras de tênis do Lagoa Iate Clube, na Lagoa da Conceição (12 quilômetros do Centro), clube que reúne hoje os melhores tenistas da cidade.
Festa Torcedores brasileiros que haviam sido barrados em Roland Garros acabaram se tornando a atração principal no complexo tenístico após a vitória de Gustavo Kuerten, improvisando um carnaval no templo francês do tênis mundial. Um grupo de estudantes brasileiros, que haviam assistido ao jogo pela TV em uma estação de metrô porque não tinham dinheiro para o ingresso, entraram em Roland Garros após o jogo e, com instrumentos de samba, comandaram a festa.


