São Paulo - Tenista de sucesso na história do tênis, o ex-líder do ranking mundial e tricampeão de Roland Garros, Gustavo Kuerten é um exemplo a ser seguido por quem espera chegar ao profissionalismo. Se da segunda cirurgia no quadril, realizada em 21 de setembro em Pittsburg, Guga é dono de uma comparação bem curiosa e que mostra toda a determinação e agruras exigidas aos jovens que buscam fama e fortuna no circuito. ''Tudo que estou passando depois da cirurgia, os sacrifícios que preciso fazer nesta fase de recuperação é 'fichinha' perto do que tive de passar para chegar a ser um profissional.''
Sem dúvida, a determinação e a disciplina reveladas por Guga sempre se caracterizaram como suas grandes virtudes. Logo cedo, passou por privações. Aos 14 anos, deixou sua casa em Florianópolis e foi viver com a avó Olga, em Camboriú, para ficar próximo do treinador Larri Passos. As suas aventuras pela Europa e América do Sul começaram ainda nos tempos de juvenil, hospedando-se em hotéis baratos, viajando de trem e muitas vezes ficando de favor em casas de família para economizar.
Acostumado a esta vida difícil, nem mesmo após ter conquistado o seu primeiro título de Roland Garros levou Guga a mudar o comportamento. Duas semanas depois de ter se consagrado em Paris já com alguns milhares de dólares no bolso manteve a humildade franciscana. Em Nottingham, onde disputou um preparatório para Wimbledon, não exigiu mordomias de um campeão de Grand Slam. Ao lado do técnico Larri Passos seguiu de trem para a estação Victoria em Londres. Jeito simples, sem ostentações carregava as malas do vagão para a plataforma, inclusive a do repórter, e correu até a calçada atrás de um carrinho de bagagens.
Nunca deixou a fama tirar sua concentração na carreira. Hoje, é claro, tira proveito do dinheiro ganho, mas nos torneios, nos vestiários, continua amigável e simples. Esta determinação, Guga acha importante passar para os novos jogadores, que buscam um lugar ao sol. Lembra que nos seus tempos de juvenil sentiu-se desanimado em alguns momentos, diante de novos cenários, falta de conforto e dificuldades. ''O mais difícil no início da carreira é saber conviver com os fracassos, com as derrotas'', ensina o tricampeão de Roland Garros. ''No juvenil estava acostumado a vencer muitos jogos e quando entrei no profissionalismo comecei a perder mais do que ganhar. Isso todos têm de passar, a não ser que seja um talento como o Nadal (Rafael, revelação espanhola) ou um Lleyton Hewitt, que não tiveram de conviver com esta situação. Mas só os gênios não passam por isso.''
Guga lembra com ênfase de um dos momentos mais difíceis de sua vida no tênis. Aconteceu justamente em Roland Garros. Ainda juvenil não conseguiu sequer entrar no qualifying do torneio júnior. Sem credencial, não podia nem entrar no complexo para treinar e, certo dia, teve de se esconder para ver um jogo entre profissionais. ''Tinha hora que precisava ter muita perseverança. Além de Roland Garros este ano, viajei para vários torneios Satélites (competições de baixa premiação usada para se ganhar os primeiros pontos no ranking) e não conseguia nem lugar no qualifying. Fui jogar muitas vezes em Buenos Aires e na Europa e perdia logo cedo. O fato de eu acreditar de continuar lutando, fez a diferença.'' (A.E.)

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