São Paulo - Se hoje Gustavo Kuerten não consegue passar despercebido por qualquer quadra do planeta é porque, há 10 anos, levantou os troféus mais importantes de sua carreira: o título da Masters Cup (torneio que reúne os oito melhores tenistas de cada temporada) e o da liderança do ranking mundial
O brasileiro teve coragem de acreditar que poderia ser número 1 do mundo no tênis mesmo sob intensas adversidades, Naquele torneio, uma lesão logo na primeira partida já quase colocou tudo a perder ''Achava que não conseguiria jogar mais nenhuma partida'', lembra Mas Guga se recuperou e, mesmo com o físico avariado, bateu ícones do esporte como Pete Sampras (quem nunca havia vencido), Andre Agassi, Yevgeni Kafelnikov e Magnus Norman para trazer o título para Florianópolis
Feliz, numa fase nova de sua vida - casou há menos de um mês com a fonoaudióloga Mariana Soncini -, Guga falou sobre os bastidores daquela conquista, a rivalidade com Andre Agassi - contra quem reedita aquela final no Maracanãzinho, dia 11 - e também à respeito do seu amor pelo esporte, que só aumenta desde que abandonou as quadras, na metade de 2008
Agência Estado - Aquela final foi um dos momentos mais emocionantes da sua carreira?
Guga - O que chamou a atenção foi o nível de performance daquele jogo, talvez o maior da minha carreira A forma como consegui conduzir o jogo todo, uma melhor de cinco sets, foi imponente Acho que o fato de estar lesionado me obrigou a atingir um alto nível de concentração Foi o maior momento da minha carreira, a conquista de maior valor
Agência Estado - E o quanto é difícil ganhar de um ídolo?
Guga - O fato de estar enfrentando esses caras mais naturalmente foi importante Eles fizeram parte do meu desenvolvimento como tenista, mas naquela época já tinham virado meus adversários O jogo com o Sampras foi até mais complexo Nunca tinha vencido ele
Agência Estado - Você chegou a achar que tudo estava perdido com aquela lesão nas costas (no primeiro jogo, contra o próprio Agassi)?
Guga - Quando saí da quadra, não sabia nem se conseguiria continuar no torneio Achava que não jogaria mais nenhuma partida A chance de ser número 1 do mundo mesmo estava completamente descartada Depois, no dia seguinte, começamos a buscar alternativas para eu jogar uma partida a mais porque era apenas minha segunda Masters Cup Tinha de aproveitar aquela oportunidade
Agência Estado - A organização te deu um dia a mais também, não?
Guga - Eu tinha uma afinidade muito grande com o João Lagos, o organizador português da Masters Cup, porque joguei diversos torneios lá quando era menor Sem dúvida que ele fez o máximo esforço junto à ATP para me dar mais um dia, que foi o que me salvou Senão não teria condição alguma de ter competido
Agência Estado - E como está a expectativa para reeditar a final com o Agassi?
Guga - Remete direto a essas sensações do meu principal momento das quadras Depois, ele é uma atração para o tênis
Agência Estado - As dores no quadril (que abreviaram sua carreira) ainda incomodam?
Guga - Hoje está um pouco mais fácil porque tenho que me concentrar numa partida específica apenas Faço uma rotina com preparação física, fisioterapia Uma rotina bem completa por umas seis semanas até chegar o dia do jogo Porque gera uma expectativa de estar bem preparado e fazer um bom jogo Até porque o Agassi é um cara competitivo também Por mais que não seja um torneio oficial, é bacana que a gente possa se desafiar, buscando sempre jogadas melhores tendo estas mesmas sensações de antes
Agência Estado - Quanto tempo você consegue ficar em quadra treinando?
Guga - Hoje em dia eu treino uma hora e meia O que acaba consumindo mais é toda a rotina Tem a parte física e de fisioterapia que consome grande parte do meu tempo Diria que fico umas 4 horas por dia envolvido na preparação para o jogo Para mim, estar na quadra é a melhor parte
Agência Estado - Um tenista que já sentiu o calor de uma quadra central nunca vai esquecer e sempre vai buscar sentir de novo
Guga - É, o jogador fica refém destes sentimentos Acho que, de alguma maneira, tem de complementar Um jogo aqui, outros desafios em áreas distintas Tenho encontrado muito este tipo de vibração no Instituto (Guga Kuerten, que auxilia crianças carentes) É diferente Existe uma ansiedade muito específica ao esporte
Agência Estado - O Moyá falou que o duelo que ele gostaria muito de ver no saibro era Nadal contra Guga Você já deve ter pensado muito como seria um duelo desses, não?
Guga - Esta ansiedade me atinge também Gostaria muito de ter enfrentado o Nadal algumas vezes Seria uma coisa natural na minha carreira se não tivesse a lesão Sinto um pesar de não tê-lo enfrentado Não tenho dúvida alguma que ele me provocaria a melhorar Hoje quando estou assistindo a um jogo dele já imagino maneiras de enfrentá-lo Criaríamos uma rivalidade de dois caras muito competitivos que hoje está um pouco restrita a ele e ao Federer Se tivesse que acrescentar alguma coisa na minha carreira, seria um jogo contra Nadal
Agência Estado - Tem tenistas que vivem fazendo exibições Você já imaginou fazer uma exibição com um cara como o Nadal?
Guga - As exibições sempre vão variando a partir do que conseguir mostrar dentro de quadra Fiquei bastante satisfeito com meu jogo com o Kafelnikov (a quem venceu numa exibição em agosto em Florianópolis) porque consigo mostrar um nível alto Então vem estes desejos de enfrentar qualquer cara do circuito Tenho uma deficiência específica do meu físico, então não posso jogar com tanta frequência, mas isso me faz bem Cada vez me sinto melhor quando jogo estas partidas A tendência, como não posso jogar tanto, é buscar jogos com um impacto maior para poder saborear bem, para valer a pena todo o afinco da preparação Porque para mim requer uma dedicação muito grande para poder jogar Mas o jogo é uma recompensa que vale a pena

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