Guerra no Quênia afeta atletas no Brasil
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terça-feira, 29 de janeiro de 2008
Jaime Kaster<br> Reportagem Local 
A violência que tem colocado o Quênia em evidência nas páginas dos jornais e sites de todo o mundo já começa a atrapalhar o rendimento dos atletas que treinam e vivem aqui no Brasil. É o que relata o técnico londrinense Moacir Marconi, o Coquinho, que há quatro anos mantém um centro de treinamento para quenianos em Nova Santa Bárbara (80 km a sudeste de Londrina). Coquinho mantém na cidade uma casa onde os africanos moram, que é utilizada por grupos que se revezam a cada período de quatro meses.
Os treinos no Norte do Paraná são usados para a aclimatação dos atletas para as provas mais famosas que eles disputam no Brasil no segundo semestre, como a Meia-Maratona do Rio, a Volta da Pampulha (em Belo Horizonte) e a São Silvestre.
De acordo com os africanos, a topografia rural de Nova Santa Bárbara, com subidas íngremes, favorece os treinamentos para provas de resistência. ''E é semelhante à região onde nós nascemos e nos criamos, Eldoret (onde estão os principais centros de treinamentos do Quênia)'', relataram eles à FOLHA durante uma visita ao município.
No momento estão quatro na casa: Daniel Gatheru Ndritui, 6º na São Silvestre 2007; Amus Mayo Maindi, que venceu em dezembro a Prova São Silveira, em Barueri (SP) e foi 3º na Corrida Tribuna, de Santos; Eunice Jeptoo (6 na Volta da Pampulha 2007) e Pauline Jhepchumba.
''Eles estão treinando em busca dos resultados aqui, mas não desligam dos fatos que ocorrem no Quênia. Ficam o tempo todo na internet e falando com os familiares ao telefone. Isso desgasta um pouco o treinamento e deixa eles apreensivos, à medida que ficam sabendo de alguém que foi atacado'', conta o técnico Coquinho.
Os últimos incidentes ocorridos no país africano, quando atletas foram mortos, ao invés de afastaram os corredores, têm provocado o retorno de muitos ao Quênia, preocupados com a segurança dos familiares. ''Três eu sei que já voltaram pra lá, o Cheruiyot (Robert), o Iwoot (Patrick) e a Alice Timbilili, que ganharam a São Silvestre'', relatou Coquinho. Cheruiyot e Alice foram campeões e Iwoot ficou em 2º na prova masculina.
O próximo a retornar será Daniel Gatheru, que treina em Santa Bárbara e foi 6º colocado na São Silvestre. Ele viaja hoje para Nairóbi (capital), após correr a 28 de Janeiro, em Apucarana, no domingo, com os demais quenianos de Coquinho. Os outros três ficarão até 27 de fevereiro, porque disputarão a XV de Fevereiro, em Cornélio Procópio.
Apesar dos conflitos, que já resultaram em mais de 700 mortos desde a contestada eleição do presidente Mwai Kibaki, em 27 de dezembro, os quenianos de Coquinho não têm medo de retornar ao país natal. ''Eles não querem estar aqui numa boa, ganhando premiações em dinheiro e suas famílias lá correndo perigo. Preferem estar lá. Só que eles me pedem que a viagem de Nairóbi a Eldoret (onde moram) seja de avião, porque se forem de carro podem ser atacados ou mortos na estrada'', informou.
Apesar de conviver há anos com os africanos, Coquinho confessa que não entende a razão dos conflitos por motivos étnicos (são 40 grupos diferentes no Quênia). ''É uma guerra absurda. Mais de 300 mil sem casa e quase mil mortos. É triste'', lamentou.


