Grupo islâmico parou o rali Dacar-Cairo
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 12 de janeiro de 2000
Por Julio Cruz Neto, especial para a Agência Estado 
Niamey, 12 (AE) - A informação veio da AFP, uma agência de notícias confiável: a ameaça terrorista que parou o rali Dacar-Cairo veio de um grupo comandado por Moctar Moctari, um até então desconhecido dissidente do GIA (Grupo Islâmico Armado). Sob seu comando, estão 300 homens fortemente armados, 40 jipes 4x4 e caminhões de abastecimento. A fonte diplomática que deu os detalhes prefere não ser identificada.
Tudo parece muito perfeito. Num dia, a organização diz que se sente obrigada a tomar uma decisão muito difícil e cancela as quatro etapas do Níger. No outro, divulgada pela própria organização, chega a Niamey, capital do Níger, a notícia que justifica perfeitamente o cancelamento.
Afinal de contas, não se brinca com o GIA. E também não deve ser bom brincar com um dissidente.
De qualquer maneira, é o que se sabe até o momento. E a geopolítica dessa região da áfrica dá um pano de fundo interessante para a história. Na área que engloba as fronteiras de quatro países (Mali, Argélia, Mauritânia e Níger), mora um povo que têm a mesma origem, mas foi separado naquela ignorante divisão de terras que os europeus (nesse caso, os franceses) fizeram na época da colonização.
É uma situação semelhante à que ocorre no extremo oeste do continente africano, onde um movimento conhecido como BBB tenta mudar a geografia de três países: Gâmbia, Guiné-Bissau e Senegal. Bs de Banjul (região da Gâmbia), Bignona (no Senegal) e Bissau (no Guiné-Bissau). A idéia é formar um estado independente.
Ainda segundo a fonte diplomática, Moctari decidiu atacar o Dacar 2000 para se vingar de Niamey, cujo exército ajudou as Forças Armadas da Argélia contra o GIA. O terrorista teria obtido suas armas junto às próprias Forças Armadas argelinas. E também junto a grupos nômades rebeldes.
Às 19h de hoje (16h de Brasília), chegou ao aeroporto de Niamey o primeiro avião de carga russo Antonov (um monstro) dos dois que vão transportar helicópteros e caminhões até Sabha, na Líbia, de onde está previsto, para segunda-feira, o início da próxima etapa. A operação aérea, orçada segundo a organização em 30 milhões de francos (cerca de R$ 10 milhões), para levar toda a estrutura do Dacar embora do Níger começa amanhã. A previsão é de 18 vôos de 10 horas de duração, levando cada um dez carros e três caminhões.
Hubert Auriol, organizador do Dacar, disse que as autoridades do Níger fizeram de tudo para convencê-lo a manter as etapas. Disse que pretende trazer o rali de volta a esse país: "O perigo não vem do povo do Níger." E garantiu que o aeroporto de Niamey, onde está montado o acampamento, é um local seguro.
O piloto belga Roland Hoebecke, vítima de traumatismo craniano decorrente de um acidente ontem, já saiu do estado de coma e deve ser levado ainda amanhã para a Bélgica. Ele estava em Abdijan, na Costa do Marfim.


