Você consegue imaginar uma porção da garotos oriundos de famílias pobres de Cambé sonhando em ser profissionais num esporte refinado e por enquanto praticado por uma elite, como o golfe? A história parece estranha, mas é a pura realidade que cerca os rapazes que trabalham como ''caddies'' no Londrina Golf Club (LGC), localizado em uma área de 32 alqueires no Patrimônio Bratislava, em Cambé.
A aspiração destes garotos não é diferente da dos demais auxiliares de golfe que trabalham por todos os campos do País e que pegam o gosto pela modalidade de tanto lidarem com a atividade no dia-a-dia. Os caddies não só carregam os tacos para o jogador e pegam a bolinha, mas também dão dicas ao golfista durante uma partida. Tanta é a experiência que pegam ao longo de anos lidando com o campo, que chegam a ser melhores jogadores que muitos dos amadores que praticam o esporte por hobby.
É semelhante ao que ocorre com os boleiros no tênis. Começam com o serviço humilde de catar as bolinhas pela quadra durante uma partida e nas horas vagas aproveitam para treinar um pouco com uma raquete emprestada por alguém. Aos poucos vão pegando a intimidade com o esporte e, devido à garra, ao biotipo e à maior força de vontade que muitos outros tenistas, alguns boleiros acabam se sobressaindo e virando profissionais ou, ao menos, professores de academias.
No golfe, a situação é parecida. Marcos Silva, professor do LGC e do Aguativa Resort (Cornélio Procópio), e Adriano Franchin são exemplos de ex-caddies que hoje disputam o circuito profissional brasileiro, federados pela Professional Golf Association (PGA-Brasil). Silva trabalhou como auxiliar no Clube Curitibano e depois no LGC, enquanto Franchin foi revelado no Golf Club de Maringá.
Outro caso é o do cambeense Rivelino Alves, que durante anos foi caddie no LGC e hoje se profissionalizou no esporte de origem britânica de acordo com o site da Confederação Brasileira de Golfe, as notícias mais remotas são de que o jogo começou a ser praticado na Escócia no século 15.
Ezequiel Cantelli, 20 anos, pretende seguir os mesmos passos dos três. Caddie desde os 10 anos no LGC (na sua época o clube permitia o trabalho de crianças; hoje é só para maiores de 16 anos), ele não fez outra coisa na vida a não ser lidar com os tacos e bolinhas. ''Nas horas que sobram, das 11h30 às 14 horas, eu pego o material e vou jogar um pouco. Estou melhorando e tenho o sonho sim de me tornar profissional'', confessa. Ele ressalta que nunca deixou de estudar para trabalhar terminou o colegial à noite.
É o mesmo caso de Leandro Oliveira, 17, um dos novatos do grupo de mais de 30 caddies do LGC. Ele está na atividade há dois anos e cursa o segundo ano do ensino médio. ''Não sei se vou ter outra profissão, mas por enquanto está legal trabalhar aqui. O mais legal é termos a oportunidade de jogar golfe'', salientou.
A única barreira que enfrentam no dia-a-dia são alguns comentários dos colegas do bairro ou da escola, que ironizam o trabalho. ''Alguns ficam me 'tirando' e perguntam: você não arranja uma profissão, não?'', reclama Fábio Aparecido Guerino, 24, o mais experiente da turma começou como caddie aos 8 anos no LGC, trabalhou dois anos fora e retornou à atividade.
Já Oliveira diz que colegas acham que ele está no lugar errado e que o golfe é ''um esporte de grã-fino''. ''Eles não sabem de nada e acham que o nosso trabalho é ir pegar a bolinha no campo. Mas não dou bola'', garante.

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