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Esporte

m de leitura Atualizado em 14/06/2022, 19:39

Goleiro da Austrália cita papel 'de bobo' em pênalti e não se vê como herói

PUBLICAÇÃO
terça-feira, 14 de junho de 2022

IGOR SIQUEIRA
AUTOR autor do artigo

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DOHA, QATAR (UOL/FOLHAPRESS) - Os acréscimos da prorrogação se aproximavam quando o goleiro reserva da Austrália parou à beira do campo para entrar no jogo mais importante dos últimos três anos, contra o Peru. Andrew Redmayne seria o substituto do capitão da seleção, Mathew Ryan. Não havia lesão, mas seria colocada em prática uma estratégia que surpreendeu inclusive alguns companheiros que já estavam há 120 minutos em ação na busca de uma vaga na Copa do Mundo de 2022.

"Pessoalmente, não esperava. Não sabia que ele entraria", confessou o meio-campista Jackson Irvine.

Embora não tivesse sido conversado com o grupo, o cenário fora desenhado pela comissão técnica ao longo da preparação para o jogo contra o Peru, frente à hipótese realista de disputa de pênaltis. Redmayne, de 33 anos, teve uma conversa rápida com Ryan no momento da troca e ouviu:

"Agora é sua vez, é o seu trabalho".

A missão, ao fim das contas, teve sucesso. A Austrália voltará ao Qatar em novembro para a Copa do Mundo, já que Redmayne defendeu uma das duas cobranças desperdiçadas pelos peruanos (a decisiva).

O tempero da história foi o comportamento do goleiro sobre a linha no momento das cobranças. O ritual começou com uma saidinha do gol, esfriando o batedor. Agacha, salta, caminha, dá passos, mexe os braços, alterna pés. E aí vem o pulo para o canto certo. O chute de Valera é defendido, explodindo a comemoração da minoria australiana no estádio Ahmad Bin Ali. No Brasil, ele até virou o "goleiro dançarino".

"É uma coisa que eu faço. Já tinha feito antes no meu clube. Tive sucesso. Se você pode ganhar 1% por fazer algo bobo, é 1% ganho. Não tem 'trash talking'. Eu chamo atenção. Se eu puder ganhar 1% por me fazer de bobo, eu vou", contou Redmayne.

O goleiro faz parte de uma geração que, em 2005, viu a Austrália retornar à Copa do Mundo depois de 32 anos. O herói da ocasião, sem trocas surpresas, foi Mark Schwarzer. Também em uma repescagem contra um sul-americano -o Uruguai-, o goleiro pegou duas cobranças (de Darío Rodríguez e Zalayeta), assegurando a vaga no Mundial da Alemanha, disputada no ano seguinte.

"Eu já assisti àquela decisão por pênaltis de 2005 tantas vezes na minha carreira", disse Redmayne.

Reserva na seleção, o goleiro passa longe de ter o protagonismo de Schwarzer. A carreira é modesta e foi toda construída no futebol australiano. Atualmente, ele defende o Sydney FC, que na temporada passada foi o oitavo em uma liga de 12 clubes. Pela participação mínima com a bola rolando, Redmayne rechaça adjetivos épicos para si:

"Eu não me considero herói. Eu joguei uma pequena parte de 120 minutos. O time foi fantástico. Limitamos as chances de gol deles. Não tenho ilusões. Tudo o que eu fiz foi defender um pênalti. Eu não me considero um herói por todo o trabalho que fizeram antes. Tivemos uma disputa de pênalti, dois, três anos atrás no Sydney FC. Então, estava fresco na memória. Eu já tenho escolhido para qual lado vou me mexer ou vou pular. Eu já tenho em mente que tenho que estar de volta relativamente ao meio antes da cobrança", explicou, após o jogo no Qatar.

Quem era concorrente direto preferiu não polemizar sobre os saltinhos de Redmayne ao longo da disputa de pênaltis.

"Infelizmente perdemos dois. Eles fizeram o trabalho deles. Temos que nos levantar disso. É um duro golpe. O goleiro fez o trabalho dele. Por isso o colocaram no jogo", resumiu um abatido Gallese, goleiro e capitão do Peru.

Jackson Irvine, o que se surpreendeu dentro de campo com o cenário, avalia que a alteração trouxe um ingrediente novo a um jogo que estava muito parelho -e de pouca inspiração.

"O elemento surpresa tem um componente psicológico e foi compensado no final. Não sabia também daquela movimentação. Eu sei que pode não ser a coisa preferida de todo mundo. Mas foi efetivo para a gente", comentou o meio-campista, cuja linha de raciocínio foi compartilhada pelo técnico Graham Arnold:

"Redmayne é um bom defensor de pênaltis. A razão foi tentar colocá-lo nesse jogo mental, acrescentar uma incerteza nos cérebros deles".

Classificada, a Austrália entra no Grupo D da Copa do Mundo do Qatar, ao lado de França, Dinamarca e Tunísia. Uma nova disputa de pênaltis em solo qatari só acontecerá se a seleção ao menos avançar para as oitavas de final - tarefa complicada, para a qual os australianos vão se dedicar a partir de agora.

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O repórter viaja a convite do Supreme Committee for Delivery & Legacy