''Ele fez o gol que o Pelé não fez''. O clichê já está batido, mas nem por isso deixa de ser utilizado. Na segunda-feira, ele dominou o noticiário esportivo, pois o assunto era um gol que um brasileiro havia feito da forma que o Rei não conseguiu e que impediu o Real Madrid de conquistar mais um título espanhol com a antecipação de cinco rodadas. O gol apenas adiou por mais uma semana ou duas o grito de campeão da torcida madrilenha. Porém, para seu autor, pode significar muito mais. Pode ser o carimbo no passaporte para a Eurocopa 2008.
A semana foi de curtição para o volante Marcos Senna, autor do golaço na vitória do Villareal sobre o Betis. O ex-jogador do Corinthians viu o goleiro adversário adiantado e arriscou, marcando ''o gol que o Pelé não fez''.
O golaço garantiu o Villareal na próxima Liga dos Campeões. O time agora luta para manter a segunda colocação do Espanhol. O time do brasileiro tem 65 pontos, contra 61 do Barcelona, que é o terceiro. O Real tem 75.
Num bate-papo com a FOLHA, um dia após marcar o gol, ele mostrou toda sua empolgação com o feito. ''Pra mim, o gol foi especial em todos os sentidos. Nunca havia feito um gol como esse e saiu em um momento muito importante. Conseguimos matematicamente classificar para a Liga dos Campeões, abrimos quatro pontos do Bacelona, jogamos um balde de água fria no Real (Madrid), que já havia preparado a festa (do título) e compararam com o gol que o Pelé não fez''.
Após garantir seu time na Liga dos Campeões, Senna sonha agora com a Eurocopa, que será realizada em agosto na Suíça e na Áustria. O volante é naturalizado espanhol e defendeu a Fúria na última Copa do Mundo. ''Dei um passo muito importante, que foi ter sido convocado para o amistoso contra a Itália e, teoricamente, devem ser os mesmos jogadores que vão à Eurocopa. O Luís Aragonés não costuma mudar muito, não. Se o Villareal está bem, melhor ainda, porque a possibilidade de eu estar na Eurocopa é ainda maior'', disse, confiante.
Senna chamou a atenção do técnico Luis Aragonés após a participação do Villareal na Liga dos Campeões em 2005. Em companhia de Riquelme, Forlan e Sorin, Senna conduziu o modesto time espanhol à semifinal, caindo diante do Arsenal após o argentino Riquelme perder um pênalti. Foi um ótimo recomeço após a uma suspensão de três meses na temporada anterior, após ser pego no antidoping por uso de uma substância proibida.
Na Copa, mais uma vez a Espanha não fez vingar a fama de favorita e caiu pelo caminho. Agora, com a nova geração espanhola mais experiente, ele aposta em surpresas na Eurocopa. ''A maioria desses teve a oprtunidade de disputar o Mundial de 2006, pegou experiência e agora é uma grande oportunidade. São jogadores já consolidados. Não são mais promessas, são realidades'', apontou.
Mesmo com onda preconceituosa na Espanha, Senna contou que nunca sofreu qualquer tipo de rejeição ou preconceito na seleção. ''Eu temia, ainda mais pela cor, por ser negro, mas não tive nenhum problema, não. Pelo contrário, me tratam bem, me incentivam, falam que torcem para eu ir bem na Eurocopa e ajudar a Espanha'', contou o volante.
Senna revelou que já superou a adaptação em vestir a camisa vermelha ao invés da amarela. ''No princípio, foi um pouco estranho. O sonho de qualquer jogador brasileiro é de chegar à seleção e, pra mim, não era diferente. Foi um pouco confuso no começo. Colocava aquela camisa vermelha, olha e: 'caramba!' Mas me receberam muito bem, me tratam super bem, me sinto em casa e bem''.
As boas campanhas do time e as boas atuações dele não foram suficiente para que se transferisse para um clube maior. Mesmo após as especulaçõs, ele renovou contrato e fica até 2010 no Villareal. ''Sempre tem rumores, mas proposta real mesmo tive depois da Copa do Mundo, de Machester, Arsenal e Inter. No Machester, eu estive com um pé dentro, mas depois, por política e demora na negociação, decidi renovar o contrato no Villareal. Já estava adaptado, já estava no País há cinco anos. Renovei e fiquei muito contente, mas não descarto nenhuma outra oferta'', ressaltou.
Aos 31 anos, Senna já faz planos para o fim da carreira, e não é no Corinthians. ''Adoraria encerrar no Rio Branco (de Americana-SP). É um clube onde iniciei minha caminhada e onde eu fecharia com chave de ouro. O Corinthians já é um clube maior, onde a cobrança é muito maior. Depois que você chega a uma certa idade, passou por muita coisa, você não quer estar escutando encheção de saco de torcedor. Não estou com mais idade para isso. Se um dia eu tiver que voltar e achar que estou bem, que vou ajudar, que não vou atrapalhar nem tirar o lugar de ninguém, até volto'', explicou.
Ele ainda lamentou a situação de Ronaldinho Gaúcho, no Barcelona, na atual temporada. O jogador encabeça a lista de dispensa do clube catalão. ''Me entristeço muito pelo jogador que é, por ser brasileiro, por tudo o que ele fez. Vejo muita injustiça do pessoal que viu o que ele fez pelo Barcelona e agora está detonando. Acho que quando ele ganhou o Campeonato Espanhol e a Champions League, já havia se encerrado seu ciclo e tinha que ter saído. Mas creio que, em outro clube, ele vai voltar a ser um dos melhores outra vez'', concluiu o hispano-brasileiro.

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