A pandemia do coronavírus trará consequências humanas e financeiras ainda sem precedentes em todo o planeta. No esporte e no futebol o impacto não será diferente. Com todas as competições suspensas, os clubes se encontram no dilema de verem as suas receitas caírem e não encontrarem os caminhos para reverter esta tendência. A La Liga, que administra o Campeonato Espanhol, estima que a paralisação forçada dos campeonatos europeus pode resultar em prejuízo de até 7,5 bilhões de euros (R$ 40,7 bilhões).

A FOLHA ouviu especialistas em marketing e gestão esportiva, que apontam que o momento exige criatividade para manter o torcedor engajado e consumindo e que os clubes vão precisar rever as suas políticas de gastos e administração, sob o risco de ficarem ainda mais endividados.

Imagem ilustrativa da imagem Gestão e criatividade para driblar o coronavírus
| Foto: Isaac Fontana/FramePhoto/Folhapress

"Difícil afirmar agora qual será o tamanho deste impacto. O que se tem certeza é que o esporte estará incluído em uma provável recessão da economia mundial", avalia Amir Somoggi, sócio da Sports Value Marketing Esportivo. "Com o agravante que outras atividades conseguem fazer o produto chegar ao consumidor, o esporte não. Está sendo punido naquilo que ele tem mais valor, que é o poder de aglutinar pessoas. E, por isso, o prejuízo é enorme".

A pandemia mundial trouxe um desafio inédito aos clubes: gerar receita sem poder colocar em campo o seu produto. Não há jogos, não há competições, os craques estão isolados em casa. Para Erich Betting, consultor de marketing esportivo e comunicação e fundador do site Máquina do Esporte, os clubes europeus e americanos já estão encontrando alternativas para manter os seus torcedores próximos, mas esta realidade ainda não chegou no Brasil.

"Lá eles possuem a propriedade intelectual sobre o conteúdo, enquanto aqui no Brasil se entregou para a mídia a produção deste conteúdo. Como o Londrina, por exemplo, pode oferecer jogos históricos, se ele não tem esta propriedade? E a questão que fica é como vou manter meu torcedor engajado se não tenho produto a oferecer?", questiona.

"O torcedor está em casa ligado na internet e esperando o clube entregar a ele algo relevante", aponta Somoggi. Os especialistas citam como bom exemplo o Athletico, que recentemente lançou o Furacão Play, plataforma com conteúdos exclusivos para os associados.

Betting cita ainda que clubes europeus estão criando rotinas de treinos e oferecendo conteúdo ao público. "A ideia é que o torcedor possa fazer o mesmo treino que o Messi", exemplifica. "A impressão que tenho é que estamos todos muito assustados aqui e não agimos como poderíamos ter feito".

PRODUTOS LICENCIADOS

Sem poder mandar seus times a campo, o clubes estão perdendo muito com a venda de produtos licenciados, receitas de bilheteria e queda nos seus programas de sócio-torcedor. Um atenuante é que ainda não se fala no corte das verbas de TV, principal fonte mantenedora dos clubes brasileiros.

Sem competições e com o público afastado, as agremiações não conseguem dar a resposta esperada pelos patrocinadores. "Tão ou mais importante que manter o torcedor engajado é entregar para o patrocinador, que paga milhões, alguma coisa. Quem conseguir produzir ações que gerem retorno, uma entrega nova terá um fator muito relevante para negociar bem o seu contrato no futuro mesmo com todas as perdas que o coronavírus vai trazer", ressalta Somoggi. "Não vi nenhum clube brasileiro fazer isso até o momento".

Gestão

O mundo, a economia e a maneira das pessoas viverem não serão os mesmos após o coronavírus. E com o esporte e o futebol não será diferente. A realidade é inédita, pois serão, no mínimo, dois meses sem nenhuma atração esportiva. Para sobreviverem, os clubes terão que buscar saúde financeira, porque as receitas serão muito menores.

"Todos nós vamos ter que reduzir o nosso consumo, que terá que ser mais responsável. Porque vamos passar por um período que todos terão menos dinheiro. O desafio dos clubes é manter a chama acesa do torcedor neste momento", comenta o consultor de marketing esportivo Erich Betting. Para o também consultor Amir Somoggi, só a interação clube, patrocinador e torcedor vai diminuir os prejuízos. "O futebol brasileiro não sabe trabalhar a parte promocional, que é a mais legal, e criatividade. Trabalhamos apenas a visibilidade. Promover e interagir a marca é a maneira de amenizar as dificuldades".

Somoggi e Betting ressaltam que os clubes terão que rever os contratos milionários com atletas e mudar a forma de gerir o negócio, que não pode ficar só dependendo dos contratos de TV e de eventos. "O esporte tem um poder muito grande de unir e precisa criar formas de ressaltar a paixão do torcedor, porque isso vai gerar negócios no futuro e compensar as perdas deste momento", conclui Betting.

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